Sunday, March 24, 2013

ENCONTRO COM OS REPRESENTANTES DAS IGREJAS E COMUNIDADES ECLESIAIS, E DAS VÁRIAS RELIGIÕES



DISCURSO DO SANTO PADRE FRANCISCO

Sala Clementina
Quarta-feira 20 de Março de 2013

Queridos irmãos e irmãs

Antes de mais nada, agradeço de coração aquilo que o meu Irmão André [o Patriarca Ecuménico Bartolomeu I ] nos disse. Muito Obrigado! Muito obrigado!

É motivo de particular alegria encontrar-me hoje convosco, Delegados das Igrejas Ortodoxas, das Igrejas Ortodoxas Orientais e das Comunidades eclesiais do Ocidente. Agradeço-vos por terdes querido tomar parte na celebração que marcou o início do meu ministério de Bispo de Roma e Sucessor de Pedro.

Ontem de manhã, durante a Santa Missa, nas vossas pessoas reconheci presentes, espiritualmente, as comunidades que representais. Assim, nesta manifestação de fé, pareceu-me viver de forma ainda mais premente a oração pela unidade dos crentes em Cristo e, ao mesmo tempo, ver de algum modo prefigurada a sua plena realização, que depende do plano de Deus e da nossa leal cooperação.

Começo o meu ministério apostólico durante este ano que o meu venerado Predecessor, Bento XVI, com uma intuição verdadeiramente inspirada, proclamou para a Igreja Católica Ano da Fé. Com esta iniciativa, que eu desejo continuar e espero que sirva de estímulo a todos para a sua caminhada de fé, ele quis assinalar os 50 anos do início do Concílio Vaticano II, propondo uma espécie de peregrinação rumo àquilo que constitui o essencial para cada cristão: a relação pessoal e transformadora com Jesus Cristo, Filho de Deus, que morreu e ressuscitou para nossa salvação. O coração da mensagem conciliar está precisamente no anseio de anunciar este tesouro perenemente válido da fé aos homens do nosso tempo.

Ao encontrar-me convosco, não posso esquecer quanto tenha significado aquele Concílio para o caminho ecuménico. Apraz-me lembrar as palavras que o Beato João XXIII, de quem brevemente celebraremos o cinquentenário da morte, pronunciou no memorável discurso de inauguração: «A Igreja Católica julga dever seu empenhar-se activamente para que se realize o grande mistério daquela unidade que Jesus Cristo pediu com oração ardente ao Pai do Céu, pouco antes do seu sacrifício. Ela goza de paz suave, bem convicta de estar intimamente unida com aquela oração» [AAS 54 (1962), 793]. Isto disse o Papa João.

Sim, queridos irmãos e irmãs em Cristo, sintamo-nos todos intimamente unidos à oração do nosso Salvador na Última Ceia, àquela sua imploração ut unum sint. Peçamos ao Pai misericordioso a graça de viver em plenitude aquela fé que recebemos, em dom, no dia do nosso Baptismo, e de poder dar testemunho livre, feliz e corajoso dela. Este será o melhor serviço que podemos prestar à causa da unidade entre os cristãos, um serviço de esperança para um mundo ainda marcado por divisões, contrastes e rivalidades. Quanto mais formos fiéis à sua vontade nos pensamentos, nas palavras e nas obras, tanto mais caminharemos efectiva e substancialmente para a unidade.

Pela minha parte, na esteira dos meus Predecessores, desejo assegurar a vontade firme de prosseguir no caminho do diálogo ecuménico e desde já agradeço, ao Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, a ajuda que continuará a oferecer, em meu nome, para esta nobilíssima causa. Peço-vos, queridos irmãos e irmãs, que leveis a minha cordial saudação e a certeza da minha recordação no Senhor Jesus às Igrejas e Comunidades cristãs que aqui representais, e a vós peço a caridade de uma oração especial pela minha pessoa, para que possa ser um Pastor segundo o coração de Cristo.

E agora dirijo-me a vós, ilustres representantes do povo judeu, ao qual nos une um vínculo espiritual muito particular, já que, como afirma o Concílio Vaticano II, «a Igreja de Cristo reconhece que os primórdios da sua fé e eleição já se encontram, segundo o mistério divino da salvação, nos patriarcas, em Moisés e nos profetas» (Decl. Nostra aetate, 4). Agradeço a vossa presença e confio que poderemos, com a ajuda do Altíssimo, continuar proficuamente aquele diálogo fraterno que o Concílio almejava (cf. ibid.) e que se tem vindo efectivamente a realizar, produzindo não poucos frutos, sobretudo no decurso das últimas décadas.

Depois saúdo e agradeço cordialmente a todos vós, queridos amigos que pertenceis a outras tradições religiosas: em primeiro lugar, os muçulmanos, que adoram o Deus único, vivo e misericordioso e O invocam na oração, e todos vós. Muito aprecio a vossa presença: nela vejo um sinal palpável da vontade de crescer na estima recíproca e na cooperação em prol do bem comum da humanidade.

A Igreja Católica está ciente da importância que tem a promoção da amizade e do respeito entre homens e mulheres de diferentes tradições religiosas – quero sublinhar isto: promoção da amizade e do respeito entre homens e mulheres de diferentes tradições religiosas –; assim o atesta o valioso trabalho que realiza o Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-religioso. E de igual modo ela está ciente da responsabilidade que grava sobre todos nós relativamente a este nosso mundo e à criação inteira, que devemos amar e guardar. Muito podemos nós fazer pelo bem de quem é mais pobre, de quem é frágil e de quem sofre, para favorecer a justiça, promover a reconciliação, construir a paz. Mas, acima de tudo, devemos manter viva no mundo a sede do absoluto, não permitindo que prevaleça uma visão unidimensional da pessoa humana, segundo a qual o homem se reduz àquilo que produz e ao que consome: esta é uma das insídias mais perigosas para o nosso tempo.

Sabemos quanta violência produziu, na história recente, a tentativa de eliminar Deus e o divino do horizonte da humanidade, e reconhecemos o valor de dar testemunho, nas nossas sociedades, da abertura originária à transcendência, que está inscrita no coração do ser humano. Nisto, sentimos que estão connosco também todos aqueles homens e mulheres que, embora não se reconhecendo filiados em nenhuma tradição religiosa, todavia andam à procura da verdade, da bondade e da beleza – esta verdade, bondade e beleza de Deus –, e que são nossos preciosos aliados nos esforços por defender a dignidade do homem, na construção duma convivência pacífica entre os povos e na guarda cuidadosa da criação.

Queridos amigos, mais uma vez obrigado pela vossa presença. A todos se estende a minha cordial e fraterna saudação.


AUDIENCE WITH REPRESENTATIVES OF THE CHURCHES AND 
ECCLESIAL COMMUNITIES AND OF THE DIFFERENT RELIGIONS

ADDRESS OF THE HOLY FATHER POPE FRANCIS

Clementine Hall
Wednesday, 20 March 2013

Dear Brothers and Sisters,

Before all else, I express my heartfelt thanks for what my brother Andrew [Ecumenical Patriarch Bartholomaios I] has said to us. Many thanks! Many thanks!

It is a source of particular joy for me to meet today with you, the delegates of the Orthodox Churches, of the Oriental Orthodox Churches and of the Ecclesial Communities of the West. I thank you for taking part in the celebration which marked the beginning of my ministry as the Bishop of Rome and the Successor of Peter.
Yesterday morning, during Holy Mass, through you I felt the spiritual presence of the communities which you represent. In this expression of faith, it seemed that we were experiencing all the more urgently the prayer for unity between believers in Christ and at the same time seeing prefigured in some way its full realization, which depends on God’s plan and our own faithful cooperation.

I begin my apostolic ministry during this year which my venerable predecessor Benedict XVI, with truly inspired intuition, proclaimed for the Catholic Church as a Year of Faith. With this initiative, which I wish to continue and which I trust will prove a stimulus for our common journey of faith, he wanted to mark the fiftieth anniversary of the beginning of the Second Vatican Council by proposing a sort of pilgrimage towards what all Christians consider essential: the personal, transforming encounter with Jesus Christ, the Son of God, who died and rose for our salvation. The core message of the Council is found precisely in the desire to proclaim this perennially valid treasure of faith to the men and women of our time.

Along with you, I cannot forget all that the Council meant for the progress of ecumenism. Here I would like to recall the words of Blessed John XXIII, the fiftieth anniversary of whose death we shall soon celebrate, in his memorable opening address: "The Catholic Church considers it her duty to work actively for the fulfilment of the great mystery of that unity for which Jesus Christ prayed so earnestly to his heavenly Father on the eve of his great sacrifice; the knowledge that she is so intimately associated with that prayer is for her an occasion of ineffable peace and joy" (AAS 54 [1962], 793]. These were the words of Pope John.

Yes, dear brothers and sisters in Christ, let us all feel closely united to the prayer of our Saviour at the Last Supper, to his appeal: ut unum sint. Let us ask the Father of mercies to enable us to live fully the faith graciously bestowed upon us on the day of our Baptism and to bear witness to it freely, joyfully and courageously. This will be the best service we can offer to the cause of Christian unity, a service of hope for a world still torn by divisions, conflicts and rivalries. The more we are faithful to his will, in our thoughts, words and actions, the more we will progress, really and substantially, towards unity.

For my part, I wish to assure you that, in continuity with my predecessors, it is my firm intention to pursue the path of ecumenical dialogue, and I thank the Pontifical Council for Promoting Christian Unity for the help that it continues to provide, in my name, in the service of this most noble cause. I ask you, dear brothers and sisters, to bring my cordial greetings and the assurance of my prayerful remembrance in the Lord Jesus to the Christian communities which you represent, and I beg of you the charity of a special prayer for me, that I may be a pastor according to the heart of Christ.

And now I turn to you, the distinguished representatives of the Jewish people, to whom we are linked by a most special spiritual bond, since, as the Second Vatican Council stated "the Church of Christ recognizes that in God’s plan of salvation the beginnings of her faith and her election are to be found in the patriarchs, Moses and the prophets" (Nostra Aetate, 4). I thank you for your presence and I trust that, with the help of the Most High, we can make greater progress in that fraternal dialogue which the Council wished to encourage (cf. ibid.) and which has indeed taken place, bearing no little fruit, especially in recent decades.

I also greet and cordially thank all of you, dear friends who are followers of other religious traditions; first Muslims, who worship God as one, living and merciful, and invoke him in prayer, and all of you. I greatly appreciate your presence: in it, I see a tangible sign of a will to grow in mutual esteem and in cooperation for the common good of humanity.

The Catholic Church is conscious of the importance of promoting friendship and respect between men and women of different religious traditions – I want to repeat this: promoting friendship and respect between men and women of different religious traditions – a sign of this can be seen in the important work carried out by the Pontifical Council for Interreligious Dialogue. The Church is likewise conscious of the responsibility which all of us have for our world, for the whole of creation, which we must love and protect. There is much that we can do to benefit the poor, the needy and those who suffer, and to favour justice, promote reconciliation and build peace. But before all else we need to keep alive in our world the thirst for the absolute, and to counter the dominance of a one-dimensional vision of the human person, a vision which reduces human beings to what they produce and to what they consume: this is one of the most insidious temptations of our time.

We know how much violence has resulted in recent times from the attempt to eliminate God and the divine from the horizon of humanity, and we are aware of the importance of witnessing in our societies to that primordial openness to transcendence which lies deep within the human heart. In this, we also sense our closeness to all those men and women who, although not identifying themselves as followers of any religious tradition, are nonetheless searching for truth, goodness and beauty, the truth, goodness and beauty of God. They are our valued allies in the commitment to defending human dignity, in building a peaceful coexistence between peoples and in safeguarding and caring for creation.

Dear friends, once again I thank you for your presence. I offer all of you my heartfelt, fraternal good wishes.

                                                    © Copyright 2013 - Libreria Editrice Vaticana

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