Sunday, November 11, 2012

Bíblia Sagrada - Edição Paulinas / SBB







By Paulinas
Bíblia Sagrada - Nova Tradução na Linguagem de Hoje( NTLH ) 
1. Um breve histórico desta Bíblia:
Paulinas Editora relança uma das Bíblias mais difundidas e populares no Brasil: "Bíblia Sagrada: Nova Tradução na Linguagem de Hoje". A história desta Bíblia iniciou-se com a publicação do "Novo Testamento - Tradução na Linguagem de Hoje", em 1973, pela Sociedade Bíblica do Brasil. Quinze anos depois, em 1988, foram incluídos os textos do Antigo Testamento, assim como se encontram na Bíblia Hebraica. A partir deste momento, a tradução chamou-se "Bíblia na Linguagem de Hoje". Uma grande revisão que demorou dez anos resultou na reapresentação desta Bíblia com o título "Nova Tradução na Linguagem de Hoje".
2. O que é canônico e deuterocanônico: 
Com o tempo, foram acrescentadas à Bíblia na Linguagem de Hoje também as traduções dos livros 1 e 2 Macabeus, Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico e Baruque, preparadas pelas Sociedades Bíblicas Unidas. Estes sete livros são canônicos para os católicos, pois fazem parte da antiga tradução latina do Primeiro (= Antigo) Testamento chamada Vulgata, a qual, por sua vez, seguiu a sequência dos livros na antiga tradução grega da primeira parte da Bíblia cristã chamada Septuaginta. Os protestantes consideram estes livros como deuterocanônicos, pois Lutero preferiu, em sua época, a configuração do Antigo Testamento da forma que se encontra na Bíblia Hebraica. Esta última não continha os sete livros acima mencionados. Com a inclusão destes livros, a Bíblia na Linguagem de Hoje tornou-se completa também para os leitores pertencentes à Igreja Católica.
3. As vantagens desta tradução: 
A maior vantagem desta Bíblia continua sendo sua linguagem mais acessível. Os tradutores adaptaram as expressões originais dos textos bíblicos ao modo de se falar atual em nossa cultura. Dessa forma, a leitura de muitas frases foi facilitada.
Enfim, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), autorizou e indica o uso desta Bíblia no ambiente católico. Espera-se assim que as riquezas da Sagrada Escritura fiquem mais acessíveis ao leitor contemporâneo.

Paulinas Editora
Impressão: 30M - 2012
ISBN: 978-85-356-1175-5
Textos Canônicos e Deuterocanônicos, suas introduções e notas: Sociedade Bíblica do Brasil( SBB ) e Sociedades Bíblicas Unidas.
Páginas: 1.504

Bíblia Mensagem de Deus






By Johan Konings
Edição revisada (de 1994) da anterior tradução da Liga de Estudos Bíblicos (LEB), que foi a primeira tradução diretamente dos originais no Brasil. Seu estilo é mais leve e as notas bastante reduzidas.
A Bíblia Mensagem de Deus:
primeira tradução católica em português diretamente a partir dos originais hebraicos e gregos, pela Liga de Estudos Bíblicos (LEB), publicada originalmente em fascículos (Ed. Agir), depois em edição de luxo
(A Bíblia mais bela do mundo, Ed. Abril) e, atualmente, em edição popular (A Bíblia Mensagem de Deus , Ed. Loyola)
LEB - Edições Loyola
Edição de 1989
Páginas: 1.394 

Little Rock Catholic Study Bible






By Little Rock Scripture Study
Open the Little Rock Catholic Study Bible and feel at home with the Word of God. Through accessibly written information and engaging visuals that highlight and clarify significant areas of Scripture, readers will easily gain an understanding of these ancient texts that can be carried into today s world. Using the authorized translation in the New American Bible, Revised Edition, this lasting volume is ideal for both personal use and group Bible study. The valuable information in the Little Rock Catholic Study Bible is offered in small notes and inserts that accompany the Bible texts as well as in expanded essays, articles, and graphics. Key symbols help readers quickly identify the type of information they need, such as explanations, definitions, dates, character and author profiles, archaeological insights, personal prayer starters, and insights connecting Scripture and its use in today s church. Colorful maps, timelines, photographs, and charts further enhance the study experience. Longer articles are dedicated to explaining study Bible fundamentals, the Catholic Church s use of the Bible, and the people and places of the biblical world.
- General Editor: Catherine Upchurch serves as the director of Little Rock Scripture Study. Her work in adult faith formation involves writing, editing, lecturing, leading retreats and days of reflection. She is the editor of A Year of Sundays and an associate editor of The Bible Today, a journal of biblical spirituality.
- Old Testament Editor: Irene Nowell, OSB, is a Benedictine of Mount St. Scholastica in Atchison, Kansas. She is an adjunct professor at St. John's University School of Theology, has published two books and numerous articles, and is a past president of the Catholic Biblical Association. She is also a member of the Committee on Illuminations and Texts for The Saint John’s Bible.
- New Testament Editor: Ronald D. Witherup, SS, is Superior General of the Sulpicians and lives in Paris, France. He holds a doctorate in biblical studies and is the author of numerous books and articles on Scripture. His current interest is in the letters of Saint Paul and the Acts of the Apostles.
Printed by: Little Rock Scripture Study-Diocese of Little Rock/ Liturgical Press
Edition: 2011
ISBN: 978-0-8146-2679-5
Pages: 2.650


By M. J. Smith (Seattle, WA USA)
I don't get excited about study Bibles - same old-same old varying only by the interests of those putting the Bible together. I do get excited about the Little Rock Catholic Study Bible. Why?
1. It doesn't talk down to the reader but rather explains difficulties plainly. For example, browsing in Proverbs one proverbs gave information about the status of children in order to make the proverb understandable. The next Proverb said that the proverb was difficult - even when the Septuagint was translated people couldn't make sense of it.
2. The layout is inviting and information is provided where needed and in digestible units - an example of the ideal application of information theory.
3. Icons are used to identify the type of notes; cross-references are shown on the side separated from the more "technical" footnotes at the bottom.
3. Notes include ones related to spiritual grow (prayer starters) and application (social justice) as well as the expected notes to help one understand the Scripture itself.
4. Notes often parallel scriptures in unexpected ways, showing scripture interpreting scripture. Paul vs. Peter, Gospel vs. Epistle ...
My only complaint - this wasn't available 20 years ago.

YouCat - Brasil








By Paulus
Chamado também de Youcat (abreviação de Youth Catechism), o Catecismo Jovem da Igreja Católica chega às mãos dos leitores brasileiros. A obra tem a mesma proposta do “Catecismo da Igreja Católica”, sendo a linguagem e o projeto gráfico seu maior diferencial. Estruturado em perguntas e respostas, o livro é dividido em quatro partes ("Em que Cremos", "Como Celebramos?", "A Vida em Cristo" e "Como Devemos Orar") e foi desenvolvido por um número considerável de padres, teólogos e professores de religião para apresentar a mensagem e a doutrina da Igreja em linguagem jovem e acessível. O Youcat vem atender a vontade dos muitos jovens que, inspirados e entusiasmados pela dinâmica das Jornadas Mundiais da Juventude, pediram um Catecismo que lhes falasse diretamente.

O YOUCAT tem a mesma proposta do "Catecismo da Igreja Católica", sendo a linguagem seu maior diferencial. Estruturado em perguntas e respostas, o livro é dividido em quatro partes. A primeira, "Em que cremos", fala sobre a Bíblia, a Criação, a fé. A segunda, "Como celebramos", aborda os vários mistérios da Igreja, os sete sacramentos, explica a estrutura do ano litúrgico etc. A terceira, "A vida em Cristo", apresenta as virtudes, os dez mandamentos - e tudo o que se relaciona a eles -, questões importantes como o aborto, os direitos humanos, e demais temas. A última, "Como devemos orar", explica a importância da oração, o porquê de se rezar, o que é o terço, como rezá-lo, e assim por diante. O YOUCAT estará disponível em dez línguas: alemão, inglês, francês, italiano, espanhol, português, polonês, holandês/flamengo, tcheco e eslovaco.


- WebSite YouCat Portugal:  http://www.youcat.org/pt/home.html

Paulus Editora
2ª Reimpressão - 2012
ISBN: 978-972-30-1590-4
Páginas: 301

Sunday, October 7, 2012

SANTA MISSA PARA A ABERTURA DO SÍNODO DOS BISPOS & HOLY MASS FOR THE OPENING OF THE SYNOD OF BISHOPS


SANTA MISSA PARA A ABERTURA DO SÍNODO DOS BISPOS
E PROCLAMAÇÃO COMO "DOUTOR DA IGREJA"
DE SÃO JOÃO DE ÁVILA E DE SANTA HILDEGARD DE BINGEN


HOMILIA DO PAPA BENTO XVI
Praça de São Pedro
Domingo, 7 de Outubro de 2012

Veneráveis Irmãos,
Queridos irmãos e irmãs,

Com esta solene concelebração inauguramos a XIII Assembléia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, que tem como tema: A Nova Evangelização para a transmissão da fé cristã. Esta temática responde a uma orientação programática para a vida da Igreja, de todos os seus membros, das famílias, comunidades, e das suas instituições. Tal perspectiva se reforça pela coincidência com o início do Ano da Fé, que terá lugar na próxima quinta-feira, dia 11 de outubro, no 50º aniversário da abertura do Concílio Ecumênico Vaticano II. Dirijo a minha cordial saudação de boas-vindas, cheia de gratidão, a vós que viestes formar parte nesta Assembléia sinodal, em especial, ao Secretário-Geral do Sínodo dos Bispos e aos seus colaboradores. Estendo a minha saudação aos delegados fraternos de outras Igrejas e Comunidades Eclesiais, e a todos os presentes, convidando-os a acompanhar com a sua oração diária, os trabalhos que realizaremos nas próximas três semanas.

As leituras bíblicas, que compõem a Liturgia da Palavra deste domingo, nos oferecem dois pontos principais de reflexão: o primeiro sobre o matrimônio, que tratarei adiante; e o segundo sobre Jesus Cristo, que abordarei em seguida. Não temos tempo para comentar esta passagem da Carta aos Hebreus, mas devemos, no início desta Assembléia sinodal, aceitar o convite para fixar o olhar no Senhor Jesus, «coroado de glória e honra, por ter sofrido a morte» (Hb 2,9). A Palavra de Deus nos coloca diante do crucificado glorioso, de modo que toda a nossa vida e, em particular, o compromisso desta assembléia sinodal, se desenrole presença d’Ele e à luz do seu mistério. A evangelização, em todo tempo e lugar, teve sempre como ponto central e último Jesus, o Cristo, o Filho de Deus (cf. Mc 1,1); e o Crucificado é por excelência o sinal distintivo de quem anuncia o Evangelho: sinal de amor e de paz, chamada à conversão e à reconciliação. Sejamos nós, Venerados Irmãos, os primeiros a ter o olhar do coração dirigido a Ele, deixando-nos purificar pela sua graça.

Queria agora refletir, brevemente, sobre a «nova evangelização», relacionando-a com a evangelização ordinária e com a missão ad gentes. A Igreja existe para evangelizar. Fiéis ao mandamento do Senhor Jesus Cristo, seus discípulos partiram pelo mundo inteiro para anunciar a Boa Nova, fundando, por toda a parte, comunidades cristãs. Com o passar do tempo, essas comunidades tornaram-se Igrejas bem organizadas, com numerosos fiéis. Em determinados períodos da história, a Divina Providência suscitou um renovado dinamismo na ação evangelizadora na Igreja. Basta pensar na evangelização dos povos anglo-saxões e eslavos, ou na transmissão do Evangelho no continente americano, e, em seguida, nos distintos períodos missionários junto dos povos da África, Ásia e Oceania. Sobre este pano de fundo dinâmico, apraz-me também dirigir o olhar para as duas figuras luminosas que acabo de proclamar Doutores da Igreja: São João de Ávila e Santa Hildegarda de Bingen. Também nos nossos tempos, o Espírito Santo suscitou na Igreja um novo impulso para proclamar a Boa Nova, um dinamismo espiritual e pastoral que encontrou a sua expressão mais universal e o seu impulso mais autorizado no Concílio Ecumênico Vaticano II. Este renovado dinamismo de evangelização produz uma influência benéfica sobre os dois "ramos" concretos que desenvolvem a partir dela, ou seja, por um lado, a missio ad gentes, isto é, a proclamação do Evangelho para aqueles que ainda não conhecem a Jesus Cristo e a Sua mensagem de salvação; e, por outro lado, a nova evangelização, destinada principalmente às pessoas que, embora batizadas, se distanciaram da Igreja e vivem sem levar em conta prática cristã. A Assembléia sinodal que se abre hoje é dedicada a essa nova evangelização, para ajudar essas pessoas a terem um novo encontro com o Senhor, o único que dá sentido profundo e paz para a nossa existência; para favorecer a redescoberta da fé, a fonte de graça que traz alegria e esperança na vida pessoal, familiar e social. Obviamente, esta orientação particular não deve diminuir nem o impulso missionário, em sentido próprio, nem as atividades ordinárias de evangelização nas nossas comunidades cristãs. Na verdade, os três aspectos da única realidade de evangelização e completam e se fecundam mutuamente.

Neste sentido, o tema do matrimônio, que nos ofereceu o Evangelho e a primeira leitura, merece uma atenção especial. A mensagem da Palavra de Deus pode ser resumida na expressão contida no livro do Gênesis e retomada pelo próprio Jesus: «Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne» (Gn 2,24, Mc 10,7-8). O que significa hoje para nós essa palavra? Parece-me que nos convida a nos tornarmos mais conscientes de uma realidade já conhecida, mas talvez não totalmente apreciada, ou seja, que o matrimônio se constitui, em si mesmo, um Evangelho, uma Boa Nova para o mundo de hoje, em particular para o mundo descristianizado. A união do homem e da mulher, o ser «uma só carne» na caridade, no amor fecundo e indissolúvel, é um sinal que fala de Deus com força, com uma eloqüência que hoje se torna ainda maior porque, infelizmente, por diversas razões, o matrimônio, justamente nas regiões de antiga tradição cristã, está passando por uma profunda crise. Não é uma coincidência. O matrimônio está ligado à fé, não num sentido genérico. O matrimônio se fundamenta, enquanto união do amor fiel e indissolúvel, na graça que vem do Deus Uno e Trino, que em Cristo nos amou com um amor fiel até a Cruz. Hoje, somos capazes de compreender toda a verdade desta afirmação, em contraste com a dolorosa realidade de muitos matrimônios que, infelizmente, acabam mal. Há uma clara correspondência entre a crise da fé e a crise do matrimônio. E, como a Igreja afirma e testemunha há muito tempo, o matrimônio é chamado a ser não apenas objeto, mas o sujeito da nova evangelização. Isso já se vê em muitas experiências ligadas a comunidades e movimentos, mas também se observa, cada vez mais, no tecido das dioceses e paróquias, como demonstrou o recente Encontro Mundial das Famílias.

A chamada universal à santidade é uma das idéias chave do renovado impulso que o Concílio Vaticano II deu à evangelização que, como tal, aplica-se a todos os cristãos (cf. Lumen gentium, 39-42). Os santos são os verdadeiros protagonistas da evangelização em todas as suas expressões. Eles são, em particular, também os pioneiros e os impulsionadores da nova evangelização: pela sua intercessão e exemplo de vida, atentos à criatividade que vem do Espírito Santo, eles mostram às pessoas, indiferentes ou mesmo hostis, a beleza do Evangelho e da comunhão em Cristo; e convidam os fiéis, por assim dizer, tíbios, a viverem a alegria da fé, da esperança e da caridade; a redescobrirem o «gosto» da Palavra de Deus e dos Sacramentos, especialmente do Pão da Vida, a Eucaristia. Santos e santas florescem entre os missionários generosos que anunciam a Boa Nova aos não-cristãos, tradicionalmente nos países de missão e atualmente em todos os lugares onde vivem pessoas não cristãs. A santidade não conhece barreiras culturais, sociais, políticas ou religiosas. Sua linguagem - a do amor e da verdade - é entendida por todos os homens de boa vontade e lhes aproxima de Jesus Cristo, fonte inesgotável de vida nova.

Neste ponto, detenhamo-nos por um momento para admirar os dois santos que hoje foram agregados ao grupo seleto dos Doutores da Igreja. São João de Ávila viveu no século XVI. Profundo conhecedor das Sagradas Escrituras, era dotado de um ardente espírito missionário. Soube adentrar, com uma profundidade particular, nos mistérios da Redenção operada por Cristo para a humanidade. Homem de Deus, unia a oração constante à atividade apostólica. Dedicou-se à pregação e ao aumento da prática dos sacramentos, concentrando seus esforços para melhorar a formação dos futuros candidatos ao sacerdócio, dos religiosos, religiosas e dos leigos, em vista de uma fecunda reforma da Igreja.

Santa Hildegarda de Bingen, importante figura feminina do século XII, ofereceu a sua valiosa contribuição para o crescimento da Igreja do seu tempo, valorizando os dons recebidos de Deus e mostrando-se uma mulher de grande inteligência, sensibilidade profunda e de reconhecida autoridade espiritual. O Senhor dotou-a com um espírito profético e de fervorosa capacidade de discernir os sinais dos tempos. Hildegard nutria um grande amor pela a criação, cultivou a medicina, a poesia e a música. Acima de tudo, sempre manteve um amor grande e fiel a Cristo e à sua Igreja.

O olhar sobre o ideal da vida cristã, expressado na chamada à santidade, nos encoraja a ver com humildade a fragilidade de muitos cristãos, antes, o seu pecado, pessoal e comunitário, que se apresenta como um grande obstáculo para a evangelização; e nos encoraja a reconhecer a força de Deus que, na fé, vem ao encontro da fraqueza humana. Portanto, não se pode falar da nova evangelização sem uma disposição sincera de conversão. Deixar-se reconciliar com Deus e com o próximo (cf. 2 Cor 5,20) é a via mestra da nova evangelização. Só purificados, os cristãos podem encontrar o legítimo orgulho da sua dignidade de filhos de Deus, criados à Sua imagem e redimidos pelo sangue precioso de Jesus Cristo, e podem experimentar a sua alegria, para compartilhá-la com todos, com os de perto e os de longe.

Queridos irmãos e irmãs, confiamos a Deus o trabalho da Assembléia sinodal com o sentimento vivo da comunhão dos santos invocando, em particular, a intercessão dos grandes evangelizadores, dentre os quais queremos incluir com grande afeto, o Beato Papa João Paulo II, cujo longo pontificado foi também um exemplo da nova evangelização. Colocamo-nos sob a proteção da Virgem Maria, Estrela da nova evangelização. Com ela, invocamos uma especial efusão do Espírito Santo, que ilumine do alto a Assembléia sinodal e torne-a fecunda para o caminho da Igreja, hoje no nosso tempo.


HOLY MASS FOR THE OPENING OF THE SYNOD OF BISHOPS AND
PROCLAMATION OF ST JOHN OF AVILA AND OF ST HILDEGARD OF BINGEN
AS "DOCTORS OF THE CHURCH" 

HOMILY OF HIS HOLINESS POPE BENEDICT XVI
Saint Peter's Square
Sunday, 7 October 2012

Dear Brother Bishops,
Dear brothers and sisters,

With this solemn concelebration we open the thirteenth Ordinary General Assembly of the Synod of Bishops on the theme The New Evangelization for the Transmission of the Christian Faith. This theme reflects a programmatic direction for the life of the Church, its members, families, its communities and institutions. And this outline is reinforced by the fact that it coincides with the beginning of the Year of Faith, starting on 11 October, on the fiftieth anniversary of the opening of the Second Vatican Ecumenical Council. I give a cordial and grateful welcome to you who have come to be part of the Synodal Assembly, in particular to the Secretary-General of the Synod of Bishops, and to his colleagues. I salute the fraternal delegates of the other churches and ecclesial communities as well as all present, inviting them to accompany in daily prayer the deliberations which will take place over the next three weeks.

The readings for this Sunday’s Liturgy of the Word propose to us two principal points of reflection: the first on matrimony, which I will touch shortly; and the second on Jesus Christ, which I will discuss now. We do not have time to comment upon the passage from the Letter to the Hebrews but, at the beginning of this Synodal Assembly, we ought to welcome the invitation to fix our gaze upon the Lord Jesus, “crowned with glory and honour, because of the suffering of death (2:9). The word of God places us before the glorious One who was crucified, so that our whole lives, and in particular the commitment of this Synodal session, will take place in the sight of him and in the light of his mystery. In every time and place, evangelization always has as its starting and finishing points Jesus Christ, the Son of God (cf. Mk 1:1); and the Crucifix is the supremely distinctive sign of him who announces the Gospel: a sign of love and peace, a call to conversion and reconciliation. My dear Brother Bishops, starting with ourselves, let us fix our gaze upon him and let us be purified by his grace.

I would now like briefly to examine the new evangelization, and its relation to ordinary evangelization and the mission ad Gentes. The Church exists to evangelize. Faithful to the Lord Jesus Christ’s command, his disciples went out to the whole world to announce the Good News, spreading Christian communities everywhere. With time, these became well-organized churches with many faithful. At various times in history, divine providence has given birth to a renewed dynamism in the Church’s evangelizing activity. We need only think of the evangelization of the Anglo-Saxon peoples or the Slavs, or the transmission of the faith on the continent of America, or the missionary undertakings among the peoples of Africa, Asia and Oceania. It is against this dynamic background that I like to look at the two radiant figures that I have just proclaimed Doctors of the Church, Saint John of Avila and Saint Hildegard of Bingen. Even in our own times, the Holy Spirit has nurtured in the Church a new effort to announce the Good News, a pastoral and spiritual dynamism which found a more universal expression and its most authoritative impulse in the Second Vatican Ecumenical Council. Such renewed evangelical dynamism produces a beneficent influence on the two specific “branches” developed by it, that is, on the one hand the Missio ad Gentes or announcement of the Gospel to those who do not yet know Jesus Christ and his message of salvation, and on the other the New Evangelization, directed principally at those who, though baptized, have drifted away from the Church and live without reference to the Christian life. The Synodal Assembly which opens today is dedicated to this new evangelization, to help these people encounter the Lord, who alone who fills our existence with deep meaning and peace; and to favour the rediscovery of the faith, that source of grace which brings joy and hope to personal, family and social life. Obviously, such a special focus must not diminish either missionary efforts in the strict sense or the ordinary activity of evangelization in our Christian communities, as these are three aspects of the one reality of evangelization which complement and enrich each other.

The theme of marriage, found in the Gospel and the first reading, deserves special attention. The message of the word of God may be summed up in the expression found in the Book of Genesis and taken up by Jesus himself: “Therefore a man leaves his father and his mother and cleaves to his wife, and they become one flesh” (Gen 2:24; Mk 10:7-8). What does this word say to us today? It seems to me that it invites us to be more aware of a reality, already well known but not fully appreciated: that matrimony is a Gospel in itself, a Good News for the world of today, especially the dechristianized world. The union of a man and a woman, their becoming “one flesh” in charity, in fruitful and indissoluble love, is a sign that speaks of God with a force and an eloquence which in our days has become greater because unfortunately, for various reasons, marriage, in precisely the oldest regions evangelized, is going through a profound crisis. And it is not by chance. Marriage is linked to faith, but not in a general way. Marriage, as a union of faithful and indissoluble love, is based upon the grace that comes from the triune God, who in Christ loved us with a faithful love, even to the Cross. Today we ought to grasp the full truth of this statement, in contrast to the painful reality of many marriages which, unhappily, end badly. There is a clear link between the crisis in faith and the crisis in marriage. And, as the Church has said and witnessed for a long time now, marriage is called to be not only an object but a subject of the new evangelization. This is already being seen in the many experiences of communities and movements, but its realization is also growing in dioceses and parishes, as shown in the recent World Meeting of Families.

One of the important ideas of the renewed impulse that the Second Vatican Council gave to evangelization is that of the universal call to holiness, which in itself concerns all Christians (cf. Lumen Gentium, 39-42). The saints are the true actors in evangelization in all its expressions. In a special way they are even pioneers and bringers of the new evangelization: with their intercession and the example of lives attentive to the inspiration of the Holy Spirit, they show the beauty of the Gospel to those who are indifferent or even hostile, and they invite, as it were tepid believers, to live with the joy of faith, hope and charity, to rediscover the taste for the word of God and for the sacraments, especially for the bread of life, the Eucharist. Holy men and women bloom among the generous missionaries who announce the Good News to non-Christians, in the past in mission countries and now in any place where there are non-Christians. Holiness is not confined by cultural, social, political or religious barriers. Its language, that of love and truth, is understandable to all people of good will and it draws them to Jesus Christ, the inexhaustible source of new life.

At this point, let us pause for a moment to appreciate the two saints who today have been added to the elect number of Doctors of the Church. Saint John of Avila lived in the sixteenth century. A profound expert on the sacred Scriptures, he was gifted with an ardent missionary spirit. He knew how to penetrate in a uniquely profound way the mysteries of the redemption worked by Christ for humanity. A man of God, he united constant prayer to apostolic action. He dedicated himself to preaching and to the more frequent practice of the sacraments, concentrating his commitment on improving the formation of candidates for the priesthood, of religious and of lay people, with a view to a fruitful reform of the Church.

Saint Hildegard of Bingen, an important female figure of the twelfth century, offered her precious contribution to the growth of the Church of her time, employing the gifts received from God and showing herself to be a woman of brilliant intelligence, deep sensitivity and recognized spiritual authority. The Lord granted her a prophetic spirit and fervent capacity to discern the signs of the times. Hildegard nurtured an evident love of creation, and was learned in medicine, poetry and music. Above all, she maintained a great and faithful love for Christ and his Church.

This summary of the ideal in Christian life, expressed in the call to holiness, draws us to look with humility at the fragility, even sin, of many Christians, as individuals and communities, which is a great obstacle to evangelization and to recognizing the force of God that, in faith, meets human weakness. Thus, we cannot speak about the new evangelization without a sincere desire for conversion. The best path to the new evangelization is to let ourselves be reconciled with God and with each other (cf. 2 Cor 5:20). Solemnly purified, Christians can regain a legitimate pride in their dignity as children of God, created in his image and redeemed by the precious blood of Jesus Christ, and they can experience his joy in order to share it with everyone, both near and far.

Dear brothers and sisters, let us entrust the work of the Synod meeting to God, sustained by the communion of saints, invoking in particular the intercession of great evangelizers, among whom, with much affection, we ought to number Blessed Pope John Paul II, whose long pontificate was an example of the new evangelization. Let us place ourselves under the protection of the Blessed Virgin Mary, Star of the New Evangelization. With her let us invoke a new outpouring of the Holy Spirit, that from on high he may illumine the Synodal Assembly and make it fruitful for the Church’s journey today, in our time. Amen.

© Copyright 2012 - Libreria Editrice Vaticana

Sunday, August 26, 2012

Dicas de Livros - 2012

Johan Konings
A Bíblia, sua origem e sua leitura 



Esta é a nova versão da sucinta introdução ao estudo bíblico, lançada em 1992 com o título A bíblia, sua história e sua leitura e refundida em 1997 com o título A Bíblia nas suas origens e hoje. A evolução da pesquisa bíblica e da prática de leitura e ensino urgiu a atualização da obra. A presente reformulação proporciona informação básica e orientações fundamentais para a leitura da Bíblia. Objetivando a visão de conjunto, fornece ao leitor um referencial para o estudo aprofundado. O roteiro se desenvolve como uma viagem ao âmbito original da Bíblia, para, com esse conhecimento, voltar ao momento presente.

Editora: Editora Vozes
Edição: 7ª
Ano: 2011
Especificações: Brochura | 280 páginas
ISBN: 978-85-326-4220-2
Peso: 390g
Dimensões: 230mm x 160mm


John Dominic Crossan & Jonathan L. Reed
Em busca de Paulo : Como o apóstolo de Jesus opôs o Reino de Deus ao Império Romano 



Editora: Paulinas
Edição: 2ª
Ano: 2007
Esprcificações:  Brochura/ 430 pags.
ISBN: 978-85-356-1977-5

Não se trata de mais uma obra sobre o apóstolo Paulo. Os autores têm plena consciência, como declaram no prefácio, da novidade de seu texto quanto à forma e ao conteúdo.
Do ponto de vista da forma, por valorizarem sobremaneira os dados arqueológicos, do ambiente físico e da sociedade concreta em que Paulo viveu e desenvolveu sua ação evangelizadora. Do ponto de vista do conteúdo, porque sublinha o objetivo e o público-alvo imediatos da ação de Paulo. Seu objetivo teria sido o de opor à estrutura do Império Romano uma nova visão da sociedade e da história, herdada do judaísmo, baseada não mais no poder de uma elite de cidadãos, mas na justiça e na igualdade efetiva entre todos os humanos.
Seu público imediato, os pagãos simpatizantes do judaísmo, cuja vida e a ação podiam transformar por dentro a sociedade imperial. Como é típico de todo trabalho arqueológico e uma das características de Crossan, um dos autores, o ponto de partida da interpretação são sempre mínimos detalhes, que vão adquirindo importância decisiva à medida que são postos em relação com outros aspectos ou textos. A obra parte da idéia da pax romana, atestada por inúmeros monumentos, que permite sublinhar um relacionamento incomum com a tradição judaica, o que cria uma situação original nas sinagogas, freqüentadas por pagãos simpatizantes do judaísmo, situados entre duas visões da paz universal.
É o que torna compreensível a atuação de Paulo, propondo uma paz fruto da justiça, mas não dependente da lei, que constitui uma bênção para todo o universo e encaminha a humanidade inteira para participação de um mesmo banquete. Um mundo em que predomina a justiça de Deus e que torna irrelevantes as diferenças existentes entre os humanos, judeus ou gregos, homens ou mulheres, grandes ou pequenos.
O universalismo paulino, fruto da justiça, opõe-se ao universalismo romano, em que a paz é entendida como vitória sobre os não-aderentes ao Império.


Jesus: Aproximação Histórica
José Antonio Pagola



Editora: Vozes
656 páginas
Peso: 866 gramas
3ª edição (2011)
ISBN: 978-85-326-4017-8

Por Faustino Teixeira
Trata-se de uma excelente novidade editorial da Vozes. Refere-se à nona edição de um livro que vem se tornando bestseller na Espanha, com traduções ao Catalão (Claret), Euskera (Idatz), Italiano (Borla) e Inglês (Paperback).
A primeira edição do livro foi publicada na Espanha em setembro de 2007 pela editora PPC (dos religiosos marianistas) e logo alcançou grande sucesso, chegando à oitava edição em fevereiro de 2008. Foi uma acolhida “muito mais ampla e positiva” que a esperada pelo próprio autor, José Antonio Pagola, com formação em teologia e ciências bíblicas pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Pontifício Instituto Bíblico de Roma e Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém. A obra provocou igualmente criticas negativas e reações do episcopado espanhol. A primeira delas partiu de Mons. Demetrio Fernández, bispo de Tarazona, que em carta pastoral de dezembro de 2007 assinalou que a “tentação ariana” assoma a obra em seu conjunto. Veio em seguida a apreciação crítica de José Rico Pavés, diretor do Secretariado Episcopal para a Doutrina da Fé da Conferência Episcopal Espanhola (CEE), que sinaliza o risco de um “dissenso sutil e daninho” na investigação histórica realizada por Pagolasobre o ensinamento de Jesus.
Todas as reações culminaram na nota de clarificação sobre o livro feita pela Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé da CEE, publicada em junho de 2008, que apontou deficiências da obra tanto no plano metodológico como doutrinal. A preocupação maior relacionava-se ao que consideravam uma “apresentação reducionista de Jesus como um mero profeta” e a “negação de sua consciência filial divina”, além de outras questões conexas.
Em defesa da obra posicionou-se o então bispo da diocese de San Sebastián, Juan Maria Uriarte. Ali atuava Pagolacomo vigário episcopal até o ano 2000 e permanecia atuando como diretor do Instituto de Teologia e Pastoral. Diante da situação crítica, Uriarte solicita a dois qualificados teólogos e a um bispo teólogo a avaliação da obra. Com a sugestão de algumas modificações, a obra ganha o Nihil Obstat de Uriarte e chega assim à sua nona edição, em junho de 2009. É essa versão que sai agora publicada em português. Dentre as mudanças observadas, verifica-se que esta nona edição ganhou uma apresentação mais detalhada e uma significativa ampliação do capítulo final, que trata o tema do aprofundamento da identidade de Jesus.
Na apresentação da obra, Pagola apresenta as razões de sua investigação histórica sobre Jesus. Sua motivação maior é captar o segredo que “se encontra neste fascinante galileu, nascido há dois mil anos numa aldeia insignificante do Império romano e executado como um malfeitor perto de uma antiga pedreira, nos arredores de Jerusalém, quando beirava os 30 anos” (p.11). Lança a questão: “Quem foi este homem que marcou decisivamente a religião, a cultura e a arte do Ocidente chegando até a impor inclusive seu calendário?”(p.11).
O objetivo do autor é lançar-se numa séria investigação, a mais rigorosa possível, sobre essa figura fascinante: sobre sua vida, suas lutas e a força e originalidade de sua atuação na história. Para tal aproximação histórica, o autor fez recurso ao rico instrumental à disposição na investigação moderna, e sempre em perspectiva interdisciplinar. Buscou igualmente apresentar seu trabalho numa linguagem simples e acessível, o que muito favorece sua leitura que é agradável e convidativa. Sente-se nessa nova apresentação uma preocupação do autor em explicitar sua intenção de concentrar-se na investigação histórica sobre Jesus, o que não significa abafar o vigor de sua confissão cristã que afirma Jesus como “verdadeiro Deus e verdadeiro homem” (p. 15). Indica claramente que seu propósito não é avançar pelos “complexos caminhos da gestação e desenvolvimento da fé cristológica” (p. 26 e p. 363, n. 2).
Como assinala Pagola, o livro nasceu de sua fé e amor a Jesus Cristo, e estimulado por essa mesma fé buscou narrar a história de Jesus de forma viva e significativa para os tempos atuais. Direciona o livro não apenas para os que se confessam cristãos, mas também para aqueles que ignoram sua realidade ou aqueles que se afastaram ou desencantaram com a igreja e buscam caminhos alternativos de vida (p. 26- 27). Sua intenção é favorecer a aproximação histórica de Jesus “estudando sobretudo a lembrança que ele deixou nos seus” (p.19). E esta aproximação é contagiante: “É difícil aproximar-se dele e não sentir-se atraído por sua pessoa. Jesus traz um horizonte diferente para a a vida, uma dimensão mais profunda, uma verdade mais essencial” (p. 22).
Os treze primeiros capítulos da obra buscam favorecer essa aproximação histórica de Jesus, mediante seus traços mais importantes. Tais capítulos facultam aos cristãos conhecer de forma mais palpável os traços humanos daquele em quem Deus revelou-se de modo único e singular: “comover-se-ão ao ver que Deus encarnado conviveu entre os homens fazendo o bem, ´curando a vida`, ´defendendo os últimos`, ´amando a mulher`e procurando a verdadeira dignidade” (p. 24). E aos demais, a possibilidade de “conhecer melhor um homem que marcou a história da humanidade” (p. 23).
Nos dois primeiros capítulos Pagola busca situar Jesus em seu contexto histórico, enquanto judeu da Galiléia e vizinho de Nazaré. Foi sob o império de Roma que viveu esse galileu de nome Yeshua, entre pessoas do campo e num ambiente de viva presença religiosa. Ele “cresceu no meio da natureza, com os olhos muito abertos para o mundo que o rodeava” (p.64), e isso se expressa na abundância de imagens que emprega em sua fala, adornada com elementos de seu espaço circundante: os pássaros do céu, as anêmonas das colinas de Nazaré, as ramas das figueiras, a beleza do sol e a força das chuvas. O seu estilo de vida difere dos ascetas do deserto, pois vem marcado pela vontade de vida e pelo toque festivo. A sua experiência de fé foi desdobrando-se de sua vida simples na Galileia, no clima religioso propício de sua aldeia. Ali foi percebendo que “Deus é o ´Pai do céu`. Não está ligado a um lugar sagrado. Não pertence a um povo ou a uma raça concretos. Não é propriedade de nenhuma religião. Deus é de todos” (p. 73-74). Ali cresceu apaixonadamente em seu coração o amor pelo reino de Deus, que se tornará a razão central de sua vida e atuação (p. 83).
Nos capítulos terceiro e quarto, apresenta Jesus como buscador de Deus e profeta do reino de Deus. Assim como o profeta João Batista, que o precede, Jesus busca captar a vontade de Deus, mas sua perspectiva é distinta. Seu estilo de vida é festivo, marcado pelo tônus da alegria. Vai dedicar-se “a algo que João nunca fez: curar os enfermos que ninguém curava, aliviar a dor de pessoas abandonadas, tocar leprosos que ninguém tocava, abençoar e abraçar crianças.” (p. 106). Enquanto a missão do Batista estava vinculada à questão do pecado, o projeto de Jesus tinha como objetivo aplacar o sofrimento dos mais excluídos e necessitados, anunciando-lhes uma Boa Notícia: “É mais determinante em sua atuação eliminar o sofrimento do que denunciar os diversos pecados das pessoas” (p. 213). No cerne de sua atuação encontra-se a “paixão pelo reino de Deus”.
Trata-se do núcleo medular de sua pregação, da convicção mais profunda que o anima, e o segredo de sua motivação existencial. E essa mensagem do reino volta-se privilegiadamente para os pobres. Jesus declara-os felizes porque Deus é amigo da vida e quer fazer do seu reino uma manifestação da compaixão de Deus que rompe com a situação de miséria e opressão e anuncia uma perspectiva nova de esperança e alegria (p. 130-131). Esta é a razão do impacto exercido pela mensagem de Jesus desde o início: “Aquela maneira de falar de Deus provoca entusiasmo nos setores mais simples (...). Era o que eles precisavam ouvir: Deus se preocupa com eles. O reino de Deus que Jesus proclama corresponde ao que eles mais desejam: viver com dignidade” (p. 124). Esse reino que vem, longe de ser uma expressão de poderio ou glória, é a manifestação efetiva da bondade e compaixão de Deus, que removem as entranhas.
Nos capítulos quinto e sexto, aparece Jesus como o poeta da compaixão e curador da vida. É à linguagem dos poetas que Jesus recorre para expressar a sua experiência e compreensão do reino de Deus. São ricas as imagens, metáforas e parábolas que utiliza para traduzir de forma simples, clara e acessível o seu projeto de vida. O que anuncia é um Deus compassivo, inigualável metáfora para expressar o seu mistério de vida. E o autor indaga: “Será esta a melhor metáfora de Deus: um pai acolhendo de braços abertos os que andam ´perdidos` fora de casa e suplicando a todos os que o contemplam e ouvem que acolham com compaixão a todos?” (p. 164). Com base na parábola do bom samaritano, Pagola sinaliza que “a melhor metáfora de Deus é a compaixão para com um ferido”, e que o reino de Deus acontece onde quer que “as pessoas atuam com misericórdia” (p. 174). Jesus é também curador da vida: alguém que contagia saúde e vida, e junto a ele não há lugar para a tristeza ou solidão. A acolhida e o cuidado são traços singulares de sua atuação. Na base dessa força curadora está a dinâmica de sua própria pessoa: “seu amor apaixonado à vida, sua acolhida afetuosa a cada enfermo ou enferma, sua força para regenerar a pessoa a partir de suas raízes, sua capacidade de transmitir sua fé na bondade de Deus. Seu poder de despertar energias desconhecidas no ser humano criava as condições que tornavam possível a recuperação da saúde” (p. 202).
Os traços de Jesus como defensor dos últimos e amigo da mulher aparecem nos capítulos sétimo e oitavo. A Boa Notícia do reino de Deus toca de modo particular os mais sofridos e pequeninos. Essa é a grande revolução trazida por Jesus, inaugurando a centralidade do “código da compaixão”. Com base na parábola do juízo final (Mt 25,31-46), Pagola indica que “o caminho que conduz a Deus não passa necessariamente pela religião, pelo culto ou pela confissão de fé, mas pela compaixão com os ´irmãos pequenos`”. Conclui dizendo que “a religião não detém o monopólio da salvação; o caminho mais acertado é a ajuda ao necessitado. Por ele caminham muitos homens e mulheres que não conhecem Jesus” (p. 235). Em seu livro, Pagola confere um importante lugar para as mulheres no movimento de Jesus. Foram verdadeiras “discípulas de Jesus”, estando presentes e atuantes desde a Galileia até Jerusalém. Elas “fizeram parte do grupo que seguia Jesus desde o início”. Algumas são nomeadas, como Maria de Mágdala, que ocupa um lugar de destaque, sendo sua melhor amiga (p. 280-281). O autor assinala a presença delas na última ceia e o seu lugar protagônico na fé pascal (p. 276-277).
Os três capítulos seguintes, nono, décimo e décimo primeiro, abordam-se os temas de Jesus como mestre de vida, criador de um movimento renovador e crente fiel. Jesus foi um “mestre pouco convencional”. Para ele não é a lei que está no centro, mas o amor. Em sintonia com toda a reflexão anterior, Pagola indica que o reino de Deus anunciado por Jesus exige, antes de tudo, fidelidade ao Deus da Vida e da Aliança. O importante “não é contar com pessoas observantes da leis, mas com filhos e filhas que se pareçam com Deus e procurem ser bons como ele o é” (p. 299). O que Jesus criou, de fato, foi um “movimento renovador”, um “movimento de homens e mulheres saídos do povo” que, em sua companhia, firma a “consciência da proximidade salvadora de Deus” (p. 323). Seus seguidores são chamados a “compartilhar sua paixão por Deus e sua disponibilidade ao serviço de seu reino” (p. 340).
Na edição anterior do livro havia uma passagem que foi retirada na nova edição e que dizia “que Jesus não pôde nem quis colocar em marcha uma instituição forte e organizada, mas um movimento curador que foi transformando o mundo numa atitude de serviço e amor. Não há como explicar a atuação profética de Jesus sem captar o mistério de sua relação amorosa com Deus.”. É Deus que está no centro de sua vida. Para Jesus, Deus não se reduz a uma teoria, mas é uma Presença que o transforma interiormente e faculta a tonalidade de sua vida de abertura e compromisso com os outros. A Deus, como Pai, dedica sua oração nos momentos cruciais de sua caminhada. Jesus sempre se dirige a Deus como “Pai”, com quem partilha confiança e intimidade (p. 383 e 392). É o Pai do céu, que “não está ligado ao templo de Jerusalém nem a nenhum outro lugar sagrado. É o Pai de todos, sem discriminação nem exclusão alguma. Não pertence a um povo privilegiado. Não é propriedade de uma religião. Todos podem invocá-lo como Pai” (p. 392).
O mistério de Deus é vivido por Jesus de forma peculiar: nele encontra o “melhor amigo do ser humano” e o “amigo da vida”. Estabelece também com ele uma peculiar “intimidade filial”. Uma das “deficiências” indicadas pela crítica da CEE contra o livro de Pagola foi a carência de uma explicitação da consciência filial divina de Jesus. O que o autor sublinha em seu livro, em sintonia com o seu propósito de se fixar no âmbito da investigação histórica, é que “Jesus mostra-se muito discreto sobre sua vida interior” (p. 363). Retoma a questão mais adiante assinalando que “ao que parece, Jesus nunca se pronunciou abertamente sobre sua pessoa. A questão de sua messianidade respondia de forma ambígua” (p. 452). Na edição anterior tinha sido mais contundente: “Em nenhum momento manifesta pretensão alguma de ser Deus: nem Jesus nem seus seguidores em vida utilizaram o titulo de ´Filho de Deus` para confessar sua condição divina”.
Nos capítulos doze, treze e quatorze o autor desenvolve os temas da morte e ressurreição de Jesus. Pagola indica em sua obra que o final trágico encontrado por Jesus foi resultado de sua vida e luta em favor do reino de Deus: “Não foi uma surpresa. Fora sendo gestado desde que ele começou a anunciar com paixão o projeto de Deus que ele trazia no coração” (p. 399). Foi alguém “coerente até o final”, um “mártir do reino de Deus”. Segundo Pagola, a investigação histórica indica que a morte de Jesus não pode ser interpretada numa perspectiva sacrificial. Na verdade, “nunca se vê Jesus oferecendo sua vida como uma imolação ao Pai para obter dele clemência para o mundo. O Pai não precisa que ninguém seja destruído em sua honra. O amor que ele tem por seus filhos é gratuito, seu perdão é incondicional” (p. 419).
Essa posição do autor também causou dificuldade para seus opositores. Na apresentação de sua obra, Pagolasinaliza que não quis concluir o seu livro com a perspectiva da cruz. Argumenta que “não quis deixar os leitores confusos diante de um Jesus executado cruelmente num patíbulo. Nem tudo terminou ali. Se a crucifixão tivesse sido a última lembrança que restou de Jesus, não teriam escrito os evangelhos nem teria nascido a Igreja” (p.24). Daí a centralidade da ressureição em sua obra, mas o autor sublinha que sua abordagem do tema foi marcada pela fidelidade ao rastreamento histórico das fontes (p. 25). Na linha dessa abordagem, a ressurreição não significou um retorno de Jesus “à sua vida anterior na terra” (p. 495). Nao foi, propriamente, um “fato histórico” constatável e verificável, mas um “fato real”, que habitou e marcou a vida de seus discípulos, e para os que crêem, um fato decisivo na história humana (p. 497). Trata-se de um “fato real” pois a fé dos seguidores de Jesus não se fundou num vazio. De fato, “algo aconteceu neles. Todas as fontes o afirmam: viveram um processo que não só reavivou a fé que tinham em Jesus, mas os abriu para uma experiência nova e inesperada de sua presença entre eles” (p. 499).
No último capitulo, Pagola desenvolve o tema da identidade de Jesus. Seguindo o critério estabelecido por James Dunn, segundo o qual o objetivo realista de uma pesquisa histórica sobre Jesus é o “Jesus recordado”, o autor vai traçar as repercussões do impacto da ressurreição nos seguidores mais próximos de Jesus. Sob o impacto desse “fato real”, é toda uma releitura da vida e significado de Jesus que vem processada: “Aquela vida surpreendente e cativante que conheceram de perto e cuja memória guardam viva no coração adquire agora uma profundidade nova”. Pagola defende, assim, a idéia de que a “lembrança” traduz o “ponto de partida da fé cristológica” (p. 528).
No epílogo da obra, Pagola adverte sobre a importância de situar Jesus no centro do cristianismo, mas evitando de “reduzir sua pessoa a uma sublime abstração” (p. 566). Driblando um dos riscos mais ameaçadores para o cristianismo atual, que é o monofisismo, o autor busca sublinhar os traços do Jesus profeta que percorreu com coragem os caminhos da Galileia. Nada mais problemático para o cristianismo do que um Jesus sem reino e Pagola está muito atento a isto. É para o reino que Jesus vive, é ele que motiva a sua paixão e dá significado à sua vida. Assinala com precisão que “o que ocupa o lugar central na vida de Jesus não é Deus simplesmente, mas Deus com seu projeto sobre a história humana. Jesus não fala de Deus simplesmente, e sim de Deus e seu reino de paz, compaixão e justiça” (p. 568). São lindas reflexões que trazem à tona o percurso reflexivo original da cristologia da libertação latino-americana. O tema do seguimento de Jesus entra no final, coroando com êxito a reflexão de Pagola. O que Jesus deixou atrás de si foi o projeto de dar continuidade ao seu sonho de fraternidade. Não “pensou numa instituição dedicada a garantir no mundo a verdadeira religião. Jesus pôs em marcha um movimento de ´seguidores` que se encarregassem de anunciar e promover seu projeto do ´reino de Deus` (...). Por isso, não há nada mais decisivo para nós do que reativar sempre de novo, dentro da Igreja, o seguimento fiel à pessoa de Jesus” (p. 569).
Não há como ler este livro de Pagola sem se emocionar. Através do recurso de uma linguagem simples mas rigorosa consegue com felicidade apresentar o itinerário histórico de Jesus e provocar as entranhas de compaixão. É uma obra grandiosa e vai, certamente, deixar rastros importantes na reflexão sobre Jesus Cristo e a dinâmica de seu seguimento na história. Muito acertada e pertinente a decisão da editora Vozes em facultar o seu acesso aos leitores brasileiros.

Sunday, August 19, 2012

Estudo Biblico dos Capuchinhos de Portugal


Finalmente, podemos satisfazer um anseio há muito expresso pelos assinantes da revista BÍBLICA: proporcionar-lhes a consulta e o estudo de todos os números publicados desde 1955. Ei-los aqui, num total de 331 (até Dezembro de 2010). Abra e "folheie". Tem muito a descobrir neste autêntico tesouro nacional.
A revista Bíblica é uma das publicações que nasceu com a fundação da Difusora Bíblica. Esta revista nasceu com a missão de divulgar a Palavra de Deus. Com a edição de seis números por ano, esta publicação procura ir ao encontro das várias sensibilidades do povo português, através duma linguagem bastante popular.
ASSINATURAS Portugal: € 10,00; Europa, Macau, Guiné Bissau, S. Tomé e Príncipe: € 14,50; Países fora da Europa: € 17,50; Assinante Benfeitor: Quantia superior à indicada para a respectiva assinatura. PAGAMENTO Adiantado no início do ano, em nome do Administrador: Manuel Gameiro. Por transferência bancária: Banco Santander - Fátima. Conta nº 0343.00200027831. NIB 0018 0343 00200027831 15 (Envie-nos o comprovativo do Banco). ADMINISTRAÇÃO E REDACÇÃO: Rua de São Francisco de Assis, s/n Apartado 208 2496-908 FÁTIMA * Telf.: 249 530 210 * Fax: 249 530 214 * E-mail: difusora@difusorabiblica.com

Site da Revista Biblica:
http://www.capuchinhos.org/index.php?option=com_content&view=article&id=1497:revista-biblica&catid=111:secretariado-das-comunicacoes-sociais&Itemid=534

Site dos Freis Capuchinhos de Portugal:
http://www.capuchinhos.org/

Friday, June 29, 2012

Celebração de São Pedro e São Paulo / Feast of Saint Peter and Saint Paul



CONCELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA E IMPOSIÇÃO DOS PÁLIOS 
AOS NOVOS ARCEBISPOS METROPOLITANOS 
NA SOLENIDADE DOS SANTOS PEDRO E PAULO 

HOMILIA DO PAPA BENTO XVI 


Basílica Vaticana
Sexta-feira, 29 de Junho de 2012
Venerados Cardeais,
Amados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Queridos irmãos e irmãs!

Reunimo-nos à volta do altar para celebrar solenemente os Apóstolos São Pedro e São Paulo, Padroeiros principais da Igreja de Roma. Temos connosco os Arcebispos Metropolitas nomeados durante os últimos doze meses, que acabaram de receber o pálio: a eles dirijo, de modo especial e afectuoso, a minha saudação. E, enviada por Sua Santidade Bartolomeu I, está presente também uma eminente Delegação do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, que acolho com gratidão fraterna e cordial. Em espírito ecuménico, tenho o prazer de saudar, e agradecer pela sua participação, «The Choir of Westminster Abbey», que anima a Liturgia juntamente com a Capela Sistina. Saúdo também os Senhores Embaixadores e as Autoridades civis: a todos agradeço pela presença e a oração.
À frente da Basílica de São Pedro, como todos bem sabem, estão colocadas duas estátuas imponentes dos Apóstolos Pedro e Paulo, facilmente identificáveis pelas respectivas prerrogativas: as chaves na mão de Pedro e a espada na mão de Paulo. Também na entrada principal da Basílica de São Paulo Extra-muros, estão conjuntamente representadas cenas da vida e do martírio destas duas colunas da Igreja. Desde sempre a tradição cristã tem considerado São Pedro e São Paulo inseparáveis: na verdade, juntos, representam todo o Evangelho de Cristo. Mas, a sua ligação como irmãos na fé adquiriu um significado particular em Roma. De facto, a comunidade cristã desta Cidade viu neles uma espécie de antítese dos mitológicos Rómulo e Remo, o par de irmãos a quem se atribui a fundação de Roma. E poder-se-ia, continuando em tema de fraternidade, pensar ainda noutro paralelismo antitético formado com o primeiro par bíblico de irmãos: mas, enquanto nestes vemos o efeito do pecado pelo qual Caim mata Abel, Pedro e Paulo, apesar de ser humanamente bastante diferentes e não obstante os conflitos que não faltaram no seu mútuo relacionamento, realizaram um modo novo e autenticamente evangélico de ser irmãos, tornado possível precisamente pela graça do Evangelho de Cristo que neles operava. Só o seguimento de Cristo conduz a uma nova fraternidade: esta é, para cada um de nós, a primeira e fundamental mensagem da Solenidade de hoje, cuja importância se reflecte também na busca da plena comunhão, à qual anelam o Patriarca Ecuménico e o Bispo de Roma, bem como todos os cristãos.
Na passagem do Evangelho de São Mateus que acabamos de ouvir, Pedro faz a sua confissão de fé em Jesus, reconhecendo-O como Messias e Filho de Deus; fá-lo também em nome dos outros apóstolos. Em resposta, o Senhor revela-lhe a missão que pretende confiar-lhe, ou seja, a de ser a «pedra», a «rocha», o fundamento visível sobre o qual está construído todo o edifício espiritual da Igreja (cf. Mt 16, 16-19). Mas, de que modo Pedro é a rocha? Como deve realizar esta prerrogativa, que naturalmente não recebeu para si mesmo? A narração do evangelista Mateus começa por nos dizer que o reconhecimento da identidade de Jesus proferido por Simão, em nome dos Doze, não provém «da carne e do sangue», isto é, das suas capacidades humanas, mas de uma revelação especial de Deus Pai. Caso diverso se verifica logo a seguir, quando Jesus prediz a sua paixão, morte e ressurreição; então Simão Pedro reage precisamente com o impeto «da carne e do sangue»: «Começou a repreender o Senhor, dizendo: (...) Isso nunca Te há-de acontecer!» (16, 22). Jesus, por sua vez, replicou-lhe: «Vai-te daqui, Satanás! Tu és para Mim uma ocasião de escândalo...» (16, 23). O discípulo que, por dom de Deus, pode tornar-se uma rocha firme, surge aqui como ele é na sua fraqueza humana: uma pedra na estrada, uma pedra onde se pode tropeçar (em grego, skandalon). Por aqui, se vê claramente a tensão que existe entre o dom que provém do Senhor e as capacidades humanas; e aparece de alguma forma antecipado, nesta cena de Jesus com Simão Pedro, o drama da história do próprio Papado, caracterizada precisamente pela presença conjunta destes dois elementos: graças à luz e força que provêm do Alto, o Papado constitui o fundamento da Igreja peregrina no tempo, mas, ao longo dos séculos assoma também a fraqueza dos homens, que só a abertura à acção de Deus pode transformar.
E no Evangelho de hoje sobressai, forte e clara, a promessa de Jesus: «as portas do inferno», isto é, as forças do mal, «non praevalebunt», não conseguirão levar a melhor. Vem à mente a narração da vocação do profeta Jeremias, a quem o Senhor diz ao confiar-lhe a missão: «Eis que hoje te estabeleço como cidade fortificada, como coluna de ferro e muralha de bronze, diante de todo este país, dos reis de Judá e de seus chefes, dos sacerdotes e do povo da terra. Far-te-ão guerra, mas não hão-de vencer - non praevalebunt -, porque Eu estou contigo para te salvar» (Jr 1, 18-19). Na realidade, a promessa que Jesus faz a Pedro é ainda maior do que as promessas feitas aos profetas antigos: de facto, estes encontravam-se ameaçados por inimigos somente humanos, enquanto Pedro terá de ser defendido das «portas do inferno», do poder destrutivo do mal. Jeremias recebe uma promessa que diz respeito à sua pessoa e ministério profético, enquanto Pedro recebe garantias relativamente ao futuro da Igreja, da nova comunidade fundada por Jesus Cristo e que se prolonga para além da existência pessoal do próprio Pedro, ou seja, por todos os tempos.
Detenhamo-nos agora no símbolo das chaves, de que nos fala o Evangelho. Ecoa nele o oráculo do profeta Isaías a Eliaquim, de quem se diz: «Porei sobre os seus ombros a chave do palácio de David; o que ele abrir, ninguém fechará; o que ele fechar, ninguém abrirá» (Is 22, 22). A chave representa a autoridade sobre a casa de David. Entretanto, no Evangelho, há outra palavra de Jesus, mas dirigida aos escribas e fariseus, censurando-os por terem fechado aos homens o Reino dos Céus (cf. Mt 23, 13). Também este dito nos ajuda a compreender a promessa feita a Pedro: como fiel administrador da mensagem de Cristo, compete-lhe abrir a porta do Reino dos Céus e decidir se alguém será aí acolhido ou rejeitado (cf. Ap 3, 7). As duas imagens – a das chaves e a de ligar e desligar – possuem significado semelhante e reforçam-se mutuamente. A expressão «ligar e desligar» pertencia à linguagem rabínica, aplicando-se tanto no contexto das decisões doutrinais como no do poder disciplinar, ou seja, a faculdade de infligir ou levantar a excomunhão. O paralelismo «na terra (...) nos Céus» assegura que as decisões de Pedro, no exercício desta sua função eclesial, têm valor também diante de Deus.
No capítulo 18 do Evangelho de Mateus, consagrado à vida da comunidade eclesial, encontramos outro dito de Jesus dirigido aos discípulos: «Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu» (Mt 18, 18). E na narração da aparição de Cristo ressuscitado aos Apóstolos na tarde da Páscoa, São João refere esta palavra do Senhor: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos» (Jo 20, 22-23). À luz destes paralelismos, é claro que a autoridade de «desligar e ligar» consiste no poder de perdoar os pecados. E esta graça, que despoja da sua energia as forças do caos e do mal, está no coração do mistério e do ministério da Igreja. A Igreja não é uma comunidade de seres perfeitos, mas de pecadores que se devem reconhecer necessitados do amor de Deus, necessitados de ser purificados através da Cruz de Jesus Cristo. Os ditos de Jesus sobre a autoridade de Pedro e dos Apóstolos deixam transparecer precisamente que o poder de Deus é o amor: o amor que irradia a sua luz a partir do Calvário. Assim podemos compreender também por que motivo, na narração evangélica, à confissão de fé de Pedro se segue imediatamente o primeiro anúncio da paixão: na verdade, foi com a sua própria morte que Jesus venceu as forças do inferno; com o seu sangue, Ele derramou sobre o mundo uma torrente imensa de misericórdia, que irriga, com as suas águas salutares, a humanidade inteira.

Queridos irmãos, como recordei no princípio, a iconografia tradicional apresenta São Paulo com a espada, e sabemos que esta representa o instrumento do seu martírio. Mas, repassando os escritos do Apóstolo dos Gentios, descobrimos que a imagem da espada se refere a toda a sua missão de evangelizador. Por exemplo, quando já sentia aproximar-se a morte, escreve a Timóteo: «Combati o bom combate» (2 Tm 4, 7); aqui não se trata seguramente do combate de um comandante, mas daquele de um arauto da Palavra de Deus, fiel a Cristo e à sua Igreja, por quem se consumou totalmente. Por isso mesmo, o Senhor lhe deu a coroa de glória e colocou-o, juntamente com Pedro, como coluna no edifício espiritual da Igreja.
Amados Metropolitas, o pálio, que vos entreguei, recordar-vos-á sempre que estais constituídos no e para o grande mistério de comunhão que é a Igreja, edifício espiritual construído sobre Cristo como pedra angular e, na sua dimensão terrena e histórica, sobre a rocha de Pedro. Animados por esta certeza, sintamo-nos todos juntos colaboradores da verdade, que – como sabemos – é una e «sinfónica», exigindo de cada um de nós e das nossas comunidades o esforço contínuo de conversão ao único Senhor na graça de um único Espírito. Que nos guie e acompanhe sempre no caminho da fé e da caridade, a Santa Mãe de Deus. Rainha dos Apóstolos, rogai por nós!

Amen.


FEAST OF SAINTS PETER AND PAUL
HOLY MASS FOR THE IMPOSITION OF THE SACRED PALLIUM 
ON METROPOLITAN ARCHBISHOPS 

HOMILY OF HIS HOLINESS BENEDICT XVI 

Vatican Basilica
Friday, 29 June 2012
Your Eminences,
Brother Bishops and Priests,
Dear Brothers and Sisters,

We are gathered around the altar for our solemn celebration of Saints Peter and Paul, the principal Patrons of the Church of Rome. Present with us today are the Metropolitan Archbishops appointed during the past year, who have just received the Pallium, and to them I extend a particular and affectionate greeting. Also present is an eminent Delegation from the Ecumenical Patriarchate of Constantinople, sent by His Holiness Bartholomaios I, and I welcome them with fraternal and heartfelt gratitude. In an ecumenical spirit, I am also pleased to greet and to thank the Choir of Westminster Abbey, who are providing the music for this liturgy alongside the Cappella Sistina. I also greet the Ambassadors and civil Authorities present. I am grateful to all of you for your presence and your prayers.
In front of Saint Peter’s Basilica, as is well known, there are two imposing statues of Saint Peter and Saint Paul, easily recognizable by their respective attributes: the keys in the hand of Peter and the sword held by Paul. Likewise, at the main entrance to the Basilica of Saint Paul Outside the Walls, there are depictions of scenes from the life and the martyrdom of these two pillars of the Church. Christian tradition has always considered Saint Peter and Saint Paul to be inseparable: indeed, together, they represent the whole Gospel of Christ. In Rome, their bond as brothers in the faith came to acquire a particular significance. Indeed, the Christian community of this City considered them a kind of counterbalance to the mythical Romulus and Remus, the two brothers held to be the founders of Rome. A further parallel comes to mind, still on the theme of brothers: whereas the first biblical pair of brothers demonstrate the effects of sin, as Cain kills Abel, yet Peter and Paul, much as they differ from one another in human terms and notwithstanding the conflicts that arose in their relationship, illustrate a new way of being brothers, lived according to the Gospel, an authentic way made possible by the grace of Christ’s Gospel working within them. Only by following Jesus does one arrive at this new brotherhood: this is the first and fundamental message that today’s solemnity presents to each one of us, the importance of which is mirrored in the pursuit of full communion, so earnestly desired by the ecumenical Patriarch and the Bishop of Rome, as indeed by all Christians.
In the passage from Saint Matthew’s Gospel that we have just heard, Peter makes his own confession of faith in Jesus, acknowledging him as Messiah and Son of God. He does so in the name of the other Apostles too. In reply, the Lord reveals to him the mission that he intends to assign to him, that of being the “rock”, the visible foundation on which the entire spiritual edifice of the Church is built (cf. Mt 16:16-19). But in what sense is Peter the rock? How is he to exercise this prerogative, which naturally he did not receive for his own sake? The account given by the evangelist Matthew tells us first of all that the acknowledgment of Jesus’ identity made by Simon in the name of the Twelve did not come “through flesh and blood”, that is, through his human capacities, but through a particular revelation from God the Father. By contrast, immediately afterwards, as Jesus foretells his passion, death and resurrection, Simon Peter reacts on the basis of “flesh and blood”: he “began to rebuke him, saying, this shall never happen to you” (16:22). And Jesus in turn replied: “Get behind me, Satan! You are a hindrance to me ...” (16:23). The disciple who, through God’s gift, was able to become a solid rock, here shows himself for what he is in his human weakness: a stone along the path, a stone on which men can stumble – in Greek, skandalon. Here we see the tension that exists between the gift that comes from the Lord and human capacities; and in this scene between Jesus and Simon Peter we see anticipated in some sense the drama of the history of the papacy itself, characterized by the joint presence of these two elements: on the one hand, because of the light and the strength that come from on high, the papacy constitutes the foundation of the Church during its pilgrimage through history; on the other hand, across the centuries, human weakness is also evident, which can only be transformed through openness to God’s action.
And in today’s Gospel there emerges powerfully the clear promise made by Jesus: “the gates of the underworld”, that is, the forces of evil, will not prevail, “non praevalebunt”. One is reminded of the account of the call of the prophet Jeremiah, to whom the Lord said, when entrusting him with his mission: “Behold, I make you this day a fortified city, an iron pillar, and bronze walls, against the whole land, against the kings of Judah, its princes, its priests, and the people of the land. They will fight against you; but they shall not prevail against you - non praevalebunt -, for I am with you, says the Lord, to deliver you!” (Jer 1:18-19). In truth, the promise that Jesus makes to Peter is even greater than those made to the prophets of old: they, indeed, were threatened only by human enemies, whereas Peter will have to be defended from the “gates of the underworld”, from the destructive power of evil. Jeremiah receives a promise that affects him as a person and his prophetic ministry; Peter receives assurances concerning the future of the Church, the new community founded by Jesus Christ, which extends to all of history, far beyond the personal existence of Peter himself.
Let us move on now to the symbol of the keys, which we heard about in the Gospel. It echoes the oracle of the prophet Isaiah concerning the steward Eliakim, of whom it was said: “And I will place on his shoulder the key of the house of David; he shall open, and none shall shut; and he shall shut, and none shall open” (Is 22:22). The key represents authority over the house of David. And in the Gospel there is another saying of Jesus addressed to the scribes and the Pharisees, whom the Lord reproaches for shutting off the kingdom of heaven from people (cf. Mt 23:13). This saying also helps us to understand the promise made to Peter: to him, inasmuch as he is the faithful steward of Christ’s message, it belongs to open the gate of the Kingdom of Heaven, and to judge whether to admit or to refuse (cf. Rev 3:7). Hence the two images – that of the keys and that of binding and loosing – express similar meanings which reinforce one another. The expression “binding and loosing” forms part of rabbinical language and refers on the one hand to doctrinal decisions, and on the other hand to disciplinary power, that is, the faculty to impose and to lift excommunication. The parallelism “on earth ... in the heavens” guarantees that Peter’s decisions in the exercise of this ecclesial function are valid in the eyes of God.
In Chapter 18 of Matthew’s Gospel, dedicated to the life of the ecclesial community, we find another saying of Jesus addressed to the disciples: “Truly I say to you, whatever you bind on earth shall be bound in heaven, and whatever you loose on earth shall be loosed in heaven” (Mt 18:18). Saint John, in his account of the appearance of the risen Christ in the midst of the Apostles on Easter evening, recounts these words of the Lord: “Receive the Holy Spirit. If you forgive the sins of any, they are forgiven: if you retain the sins of any, they are retained” (Jn 20:22-23). In the light of these parallels, it appears clearly that the authority of loosing and binding consists in the power to remit sins. And this grace, which defuses the powers of chaos and evil, is at the heart of the Church’s mystery and ministry. The Church is not a community of the perfect, but a community of sinners, obliged to recognize their need for God’s love, their need to be purified through the Cross of Jesus Christ. Jesus’ sayings concerning the authority of Peter and the Apostles make it clear that God’s power is love, the love that shines forth from Calvary. Hence we can also understand why, in the Gospel account, Peter’s confession of faith is immediately followed by the first prediction of the Passion: through his death, Jesus conquered the powers of the underworld, with his blood he poured out over the world an immense flood of mercy, which cleanses the whole of humanity in its healing waters.

Dear brothers and sisters, as I mentioned at the beginning, the iconographic tradition represents Saint Paul with a sword, and we know that this was the instrument with which he was killed. Yet as we read the writings of the Apostle of the Gentiles, we discover that the image of the sword refers to his entire mission of evangelization. For example, when he felt death approaching, he wrote to Timothy: “I have fought the good fight” (2 Tim 4:7). This was certainly not the battle of a military commander but that of a herald of the Word of God, faithful to Christ and to his Church, to which he gave himself completely. And that is why the Lord gave him the crown of glory and placed him, together with Peter, as a pillar in the spiritual edifice of the Church.
Dear Metropolitan Archbishops, the Pallium that I have conferred on you will always remind you that you have been constituted in and for the great mystery of communion that is the Church, the spiritual edifice built upon Christ as the cornerstone, while in its earthly and historical dimension, it is built on the rock of Peter. Inspired by this conviction, we know that together we are all cooperators of the truth, which as we know is one and “symphonic”, and requires from each of us and from our communities a constant commitment to conversion to the one Lord in the grace of the one Spirit. May the Holy Mother of God guide and accompany us always along the path of faith and charity. Queen of Apostles, pray for us!
Amen.

© Copyright 2012 - Libreria Editrice Vaticana

Sunday, June 3, 2012

VII Encontro Mundial Das Familias / 7th World Meeting Of Families



                          VISITA PASTORAL À ARQUIDIOCESE DE MILÃO
                                E VII ENCONTRO MUNDIAL DAS FAMÍLIAS
                                                (1-3 DE JUNHO DE 2012)

                                              CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA

                                             HOMILIA DO PAPA BENTO XVI



Parque de Bresso
Domingo, 3 de Junho de 2012

Venerados Irmãos,
Distintas Autoridades,
Amados irmãos e irmãs!

Grande momento de alegria e de comunhão é este que vivemos ao celebrar o Sacrifício Eucarístico, nesta manhã. Está reunida com o Sucessor de Pedro uma grande assembleia, composta por fiéis vindos de muitas nações. Nela temos uma expressiva imagem da Igreja, una e universal, fundada por Cristo e fruto da missão que Jesus, como ouvimos no Evangelho, confiou aos seus Apóstolos: «Ide, pois, fazer discípulos de todas as nações, baptizai-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (Mt 28, 18-19). Saúdo com afecto e gratidão o Cardeal Angelo Scola, Arcebispo de Milão, e o Cardeal Ennio Antonelli, Presidente do Pontifício Conselho para a Família, principais artífices deste VII Encontro Mundial das Famílias, bem como os seus colaboradores, os Bispos Auxiliares de Milão e todos os outros Prelados. Com prazer, saúdo todas as Autoridades presentes. E, hoje, o meu caloroso abraço vai sobretudo para vós, queridas famílias! Obrigado pela vossa participação!
Na segunda Leitura, o apóstolo Paulo recordou-nos que recebemos no Baptismo o Espírito Santo, que de tal modo nos une a Cristo como irmãos e liga ao Pai como filhos, que podemos gritar: «Abba! Pai!» (cf. Rm 8, 15.17). Então foi-nos dado um gérmen de vida nova, divina, que se há-de fazer crescer até à realização definitiva na glória celeste; tornamo-nos membros da Igreja, a família de Deus, «sacrarium Trinitatis» – na expressão de Santo Ambrósio –, «um povo – como ensina o Concílio Vaticano II – unido pela unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (Const. Lumen gentium, 4). A solenidade litúrgica da Santíssima Trindade, que hoje celebramos, convida-nos a contemplar este mistério, mas impele-nos também ao compromisso de viver a comunhão com Deus e entre nós segundo o modelo da comunhão trinitária. Somos chamados a acolher e a transmitir, concordes, as verdades da fé; a viver o amor recíproco e para com todos, compartilhando alegrias e sofrimentos, aprendendo a pedir e a dar o perdão, valorizando os diversos carismas sob a guia dos Pastores. Numa palavra, está-nos confiada a tarefa de construir comunidades eclesiais que sejam cada vez mais família, capazes de reflectir a beleza da Trindade e evangelizar não só com a palavra mas – diria eu – por «irradiação», com a força do amor vivido.
Não é só a Igreja que é chamada a ser imagem do Deus Uno em Três Pessoas, mas também a família fundada no matrimónio entre o homem e a mulher. No princípio, de facto, «Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus: Ele os criou homem e mulher. Abençoando-os, Deus disse-lhes: “Crescei e multiplicai-vos”» (Gn 1, 27-28). Deus criou o ser humano, homem e mulher, com igual dignidade, mas também com características próprias e complementares, para que os dois fossem dom um para o outro, se valorizassem reciprocamente e realizassem uma comunidade de amor e de vida. O amor é o que faz da pessoa humana a autêntica imagem da Trindade, imagem de Deus. Queridos esposos, na vivência do matrimónio, não dais qualquer coisa ou alguma actividade, mas a vida inteira. E o vosso amor é fecundo, antes de mais nada, para vós mesmos, porque desejais e realizais o bem um do outro, experimentando a alegria do receber e do dar. Depois é fecundo na procriação generosa e responsável dos filhos, na solicitude carinhosa por eles e na educação cuidadosa e sábia. Finalmente é fecundo para a sociedade, porque a vida familiar é a primeira e insubstituível escola das virtudes sociais, tais como o respeito pelas pessoas, a gratuidade, a confiança, a responsabilidade, a solidariedade, a cooperação. Queridos esposos, cuidai dos vossos filhos e, num mundo dominado pela técnica, transmiti-lhes com serenidade e confiança as razões para viver, a força da fé desvendando-lhes metas altas e servindo-lhes de apoio na fragilidade. Mas também vós, filhos, sabei manter sempre uma relação de profundo afecto e solícito cuidado com os vossos pais, e as relações entre irmãos e irmãs sejam também oportunidade para crescer no amor.
O projecto de Deus para o casal humano alcança a sua plenitude em Jesus Cristo, que elevou o matrimónio a Sacramento. Com um dom especial do Espírito Santo, queridos esposos, Cristo faz-vos participar no seu amor esponsal, tornando-vos sinal do seu amor pela Igreja: um amor fiel e total. Se souberdes acolher este dom, renovando diariamente o vosso «sim» com fé e com a força que vem da graça do Sacramento, também a vossa família viverá do amor de Deus, tomando por modelo a Sagrada Família de Nazaré. Queridas famílias, pedi muitas vezes, na oração, o auxílio da Virgem Maria e de São José, para que vos ensinem a acolher o amor de Deus como o acolheram eles. A vossa vocação não é fácil de viver, especialmente hoje, mas a realidade do amor é maravilhosa, é a única força que pode verdadeiramente transformar o universo, o mundo. Aos vossos olhos foi oferecido o testemunho de tantas famílias, que indicam os caminhos para crescer no amor: manter um relacionamento perseverante com Deus e participar na vida eclesial, cultivar o diálogo, respeitar o ponto de vista do outro, estar disponíveis para servir, ser paciente com os defeitos alheios, saber perdoar e pedir perdão, superar com inteligência e humildade os possíveis conflitos, concordar as directrizes educacionais, estar abertos às outras famílias, atentos aos pobres, ser responsáveis na sociedade civil. Todos estes são elementos que constroem a família. Vivei-os com coragem, pois na medida em que, com o apoio da graça divina, viverdes o amor mútuo e para com todos, tornar-vos-eis um Evangelho vivo, uma verdadeira Igreja doméstica (cf. Exort. ap. Familiaris consortio, 49). Quero dedicar uma palavra também aos fiéis que, embora compartilhando os ensinamentos da Igreja sobre a família, estão marcados por experiências dolorosas de falência e separação. Sabei que o Papa e a Igreja vos apoiam na vossa fadiga. Encorajo-vos a permanecer unidos às vossas comunidades, enquanto almejo que as dioceses assumam adequadas iniciativas de acolhimento e proximidade.
No livro do Génesis, Deus confia ao casal humano a sua criação, para que a guarde, cultive e guie de acordo com o seu plano (cf. 1, 27-28; 2, 15). Nesta indicação da Sagrada Escritura, podemos ler a missão que tem o homem e a mulher de colaborar com Deus para transformar o mundo, através do trabalho, da ciência e da técnica. O homem e a mulher são também imagem de Deus nesta obra preciosa, que devem realizar com o mesmo amor do Criador. Vemos que, nas teorias económicas modernas, prevalece muitas vezes uma concepção utilitarista do trabalho, da produção e do mercado. Mas, o projecto de Deus e a própria experiência mostram que não é a lógica unilateral do que me é útil e do maior lucro que pode concorrer para um desenvolvimento harmonioso, o bem da família e para construir uma sociedade justa, porque traz consigo uma competição exasperada, fortes desigualdades, degradação do meio ambiente, corrida ao consumo, mal-estar nas famílias. Antes, a mentalidade utilitarista tende a estender-se também às relações interpessoais e familiares, reduzindo-as a convergências precárias de interesses individuais e minando a solidez do tecido social.
Um último elemento. O homem, enquanto imagem de Deus, é chamado também ao descanso e à festa. A narrativa da criação termina com estas palavras: «Concluída, no sétimo dia, toda a obra que tinha feito, Deus repousou, no sétimo dia, de todo o trabalho por Ele realizado. Deus abençoou o sétimo dia e santificou-o» (Gn 2, 2-3). Para nós, cristãos, o dia de festa é o Domingo, dia do Senhor, Páscoa da semana. É o dia da Igreja, assembleia convocada pelo Senhor ao redor da mesa da Palavra e do Sacrifício Eucarístico, como estamos a fazer hoje, para nos alimentar d’Ele, entrar no seu amor e viver do seu amor. É o dia do homem e dos seus valores: convivência, amizade, solidariedade, cultura, contacto com a natureza, jogo, desporto. É o dia da família, em que se há-de viver, juntos, o sentido da festa, do encontro, da partilha, também com a participação na Santa Missa. Queridas famílias, mesmo nos ritmos acelerados do nosso tempo, não percais o sentido do dia do Senhor! É como o oásis onde parar para saborear a alegria do encontro e saciar a nossa sede de Deus.
Família, trabalho, festa: três dons de Deus, três dimensões da nossa vida que se devem encontrar num equilíbrio harmonioso. Harmonizar os horários do trabalho e as exigências da família, a profissão e a paternidade e maternidade, o trabalho e a festa é importante para construir sociedades com um rosto humano. Nisto, privilegiai sempre a lógica do ser sobre a do ter: a primeira constrói, a segunda acaba por destruir. É preciso educar-se para crer, em primeiro lugar na família, no amor autêntico: o amor que vem de Deus e nos une a Ele e, por isso mesmo, «nos transforma em um Nós, que supera as nossas divisões e nos faz ser um só, até que, no fim, Deus seja “tudo em todos” (1 Cor 15, 28)» (Enc. Deus caritas est, 18). Amen.


                          PASTORAL VISIT TO THE ARCHDIOCESE OF MILAN
                                 AND 7th WORLD MEETING OF FAMILIES
                                                            (1-3 JUNE 2012)

                                             EUCHARISTIC CELEBRATION

                              HOMILY OF HIS HOLINESS POPE BENEDICT XVI



Bresso Park
Sunday, 3 June 2012

Dear Brother Bishops,
Distinguished Authorities,
Dear Brothers and Sisters,

It is a time of great joy and communion that we are experiencing this morning, as we celebrate the eucharistic Sacrifice: a great gathering, in union with the Successor of Peter, consisting of faithful who have come from many different nations. It is an eloquent image of the Church, one and universal, founded by Christ and fruit of the mission entrusted by Jesus to his Apostles, as we heard in today’s Gospel: to go and make disciples of all nations, “baptizing them in the name of the Father and of the Son and of the Holy Spirit” (Mt 28:18-19). With affection and gratitude I greet Cardinal Angelo Scola, Archbishop of Milan, and Cardinal Ennio Antonelli, President of the Pontifical Council for the Family, the principal architects of this VII World Meeting of Families, together with their staff, the Auxiliary Bishops of Milan and all the other bishops. I am pleased to greet all the Authorities who are present today. And I extend a warm welcome especially to you, dear families! Thank you for your participation!
In today’s second reading, Saint Paul reminds us that in Baptism we received the Holy Spirit, who unites us to Christ as brothers and sisters and makes us children of the Father, so that we can cry out: “Abba, Father!” (cf. Rom 8:15,17). At that moment we were given a spark of new, divine life, which is destined to grow until it comes to its definitive fulfilment in the glory of heaven; we became members of the Church, God’s family, “sacrarium Trinitatis” as Saint Ambrose calls it, “a people made one by the unity of the Father, the Son and the Holy Spirit”, as the Second Vatican Council teaches (Lumen Gentium, 4). The liturgical Solemnity of the Holy Trinity that we are celebrating today invites us to contemplate this mystery, but it also urges us to commit ourselves to live our communion with God and with one another according to the model of Trinitarian communion. We are called to receive and to pass on the truths of faith in a spirit of harmony, to live our love for each other and for everyone, sharing joys and sufferings, learning to seek and to grant forgiveness, valuing the different charisms under the leadership of the bishops. In a word, we have been given the task of building church communities that are more and more like families, able to reflect the beauty of the Trinity and to evangelize not only by word, but I would say by “radiation”, in the strength of living love.
It is not only the Church that is called to be the image of One God in Three Persons, but also the family, based on marriage between man and woman. In the beginning, “God created man in his own image, in the image of God he created him; male and female he created them. And God blessed them, and God said to them, ‘Be fruitful and multiply’” (Gen 1:27-28). God created us male and female, equal in dignity, but also with respective and complementary characteristics, so that the two might be a gift for each other, might value each other and might bring into being a community of love and life. It is love that makes the human person the authentic image of the Blessed Trinity, image of God. Dear married couples, in living out your marriage you are not giving each other any particular thing or activity, but your whole lives. And your love is fruitful first and foremost for yourselves, because you desire and accomplish one another’s good, you experience the joy of receiving and giving. It is also fruitful in your generous and responsible procreation of children, in your attentive care for them, and in their vigilant and wise education. And lastly, it is fruitful for society, because family life is the first and irreplaceable school of social virtues, such as respect for persons, gratuitousness, trust, responsibility, solidarity, cooperation. Dear married couples, watch over your children and, in a world dominated by technology, transmit to them, with serenity and trust, reasons for living, the strength of faith, pointing them towards high goals and supporting them in their fragility. And let me add a word to the children here: be sure that you always maintain a relationship of deep affection and attentive care for your parents, and see that your relationships with your brothers and sisters are opportunities to grow in love.
God’s plan for the human couple finds its fullness in Jesus Christ, who raised marriage to the level of a sacrament. Dear married couples, by means of a special gift of the Holy Spirit, Christ gives you a share in his spousal love, making you a sign of his faithful and all-embracing love for the Church. If you can receive this gift, renewing your “yes” each day by faith, with the strength that comes from the grace of the sacrament, then your family will grow in God’s love according to the model of the Holy Family of Nazareth. Dear families, pray often for the help of the Virgin Mary and Saint Joseph, that they may teach you to receive God’s love as they did. Your vocation is not easy to live, especially today, but the vocation to love is a wonderful thing, it is the only force that can truly transform the cosmos, the world. You have before you the witness of so many families who point out the paths for growing in love: by maintaining a constant relationship with God and participating in the life of the Church, by cultivating dialogue, respecting the other’s point of view, by being ready for service and patient with the failings of others, by being able to forgive and to seek forgiveness, by overcoming with intelligence and humility any conflicts that may arise, by agreeing on principles of upbringing, and by being open to other families, attentive towards the poor, and responsible within civil society. These are all elements that build up the family. Live them with courage, and be sure that, insofar as you live your love for each other and for all with the help of God’s grace, you become a living Gospel, a true domestic Church (cf. Familiaris Consortio, 49). I should also like to address a word to the faithful who, even though they agree with the Church’s teachings on the family, have had painful experiences of breakdown and separation. I want you to know that the Pope and the Church support you in your struggle. I encourage you to remain united to your communities, and I earnestly hope that your dioceses are developing suitable initiatives to welcome and accompany you.
In the Book of Genesis, God entrusts his creation to the human couple for them to guard it, cultivate it, and direct it according to his plan (cf. 1:27-28; 2:15). In this indication of Sacred Scripture we may recognize the task of man and woman to collaborate with God in the process of transforming the world through work, science and technology. Man and woman are also the image of God in this important work, which they are to carry out with the Creator’s own love. In modern economic theories, there is often a utilitarian concept of work, production and the market. Yet God’s plan, as well as experience, show that the one-sided logic of sheer utility and maximum profit are not conducive to harmonious development, to the good of the family or to building a just society, because it brings in its wake ferocious competition, strong inequalities, degradation of the environment, the race for consumer goods, family tensions. Indeed, the utilitarian mentality tends to take its toll on personal and family relationships, reducing them to a fragile convergence of individual interests and undermining the solidity of the social fabric.
One final point: man, as the image of God, is also called to rest and to celebrate. The account of creation concludes with these words: “And on the seventh day God finished his work which he had done, and he rested on the seventh day from all his work which he had done. So God blessed the seventh day and hallowed it” (Gen 2:2-3). For us Christians, the feast day is Sunday, the Lord’s day, the weekly Easter. It is the day of the Church, the assembly convened by the Lord around the table of the word and of the eucharistic Sacrifice, just as we are doing today, in order to feed on him, to enter into his love and to live by his love. It is the day of man and his values: conviviality, friendship, solidarity, culture, closeness to nature, play, sport. It is the day of the family, on which to experience together a sense of celebration, encounter, sharing, not least through taking part in Mass. Dear families, despite the relentless rhythms of the modern world, do not lose a sense of the Lord’s Day! It is like an oasis in which to pause, so as to taste the joy of encounter and to quench our thirst for God.
Family, work, celebration: three of God’s gifts, three dimensions of our lives that must be brought into a harmonious balance. Harmonizing work schedules with family demands, professional life with fatherhood and motherhood, work with celebration, is important for building up a society with a human face. In this regard, always give priority to the logic of being over that of having: the first builds up, the second ends up destroying. We must learn to believe first of all in the family, in authentic love, the kind that comes from God and unites us to him, the kind that therefore “makes us a ‘we’ which transcends our divisions and makes us one, until in the end God is ‘all in all’ (1 Cor 15:28)” (Deus Caritas Est, 18). Amen.

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