Friday, June 29, 2012

Celebração de São Pedro e São Paulo / Feast of Saint Peter and Saint Paul



CONCELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA E IMPOSIÇÃO DOS PÁLIOS 
AOS NOVOS ARCEBISPOS METROPOLITANOS 
NA SOLENIDADE DOS SANTOS PEDRO E PAULO 

HOMILIA DO PAPA BENTO XVI 


Basílica Vaticana
Sexta-feira, 29 de Junho de 2012
Venerados Cardeais,
Amados Irmãos no Episcopado e no Sacerdócio,
Queridos irmãos e irmãs!

Reunimo-nos à volta do altar para celebrar solenemente os Apóstolos São Pedro e São Paulo, Padroeiros principais da Igreja de Roma. Temos connosco os Arcebispos Metropolitas nomeados durante os últimos doze meses, que acabaram de receber o pálio: a eles dirijo, de modo especial e afectuoso, a minha saudação. E, enviada por Sua Santidade Bartolomeu I, está presente também uma eminente Delegação do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, que acolho com gratidão fraterna e cordial. Em espírito ecuménico, tenho o prazer de saudar, e agradecer pela sua participação, «The Choir of Westminster Abbey», que anima a Liturgia juntamente com a Capela Sistina. Saúdo também os Senhores Embaixadores e as Autoridades civis: a todos agradeço pela presença e a oração.
À frente da Basílica de São Pedro, como todos bem sabem, estão colocadas duas estátuas imponentes dos Apóstolos Pedro e Paulo, facilmente identificáveis pelas respectivas prerrogativas: as chaves na mão de Pedro e a espada na mão de Paulo. Também na entrada principal da Basílica de São Paulo Extra-muros, estão conjuntamente representadas cenas da vida e do martírio destas duas colunas da Igreja. Desde sempre a tradição cristã tem considerado São Pedro e São Paulo inseparáveis: na verdade, juntos, representam todo o Evangelho de Cristo. Mas, a sua ligação como irmãos na fé adquiriu um significado particular em Roma. De facto, a comunidade cristã desta Cidade viu neles uma espécie de antítese dos mitológicos Rómulo e Remo, o par de irmãos a quem se atribui a fundação de Roma. E poder-se-ia, continuando em tema de fraternidade, pensar ainda noutro paralelismo antitético formado com o primeiro par bíblico de irmãos: mas, enquanto nestes vemos o efeito do pecado pelo qual Caim mata Abel, Pedro e Paulo, apesar de ser humanamente bastante diferentes e não obstante os conflitos que não faltaram no seu mútuo relacionamento, realizaram um modo novo e autenticamente evangélico de ser irmãos, tornado possível precisamente pela graça do Evangelho de Cristo que neles operava. Só o seguimento de Cristo conduz a uma nova fraternidade: esta é, para cada um de nós, a primeira e fundamental mensagem da Solenidade de hoje, cuja importância se reflecte também na busca da plena comunhão, à qual anelam o Patriarca Ecuménico e o Bispo de Roma, bem como todos os cristãos.
Na passagem do Evangelho de São Mateus que acabamos de ouvir, Pedro faz a sua confissão de fé em Jesus, reconhecendo-O como Messias e Filho de Deus; fá-lo também em nome dos outros apóstolos. Em resposta, o Senhor revela-lhe a missão que pretende confiar-lhe, ou seja, a de ser a «pedra», a «rocha», o fundamento visível sobre o qual está construído todo o edifício espiritual da Igreja (cf. Mt 16, 16-19). Mas, de que modo Pedro é a rocha? Como deve realizar esta prerrogativa, que naturalmente não recebeu para si mesmo? A narração do evangelista Mateus começa por nos dizer que o reconhecimento da identidade de Jesus proferido por Simão, em nome dos Doze, não provém «da carne e do sangue», isto é, das suas capacidades humanas, mas de uma revelação especial de Deus Pai. Caso diverso se verifica logo a seguir, quando Jesus prediz a sua paixão, morte e ressurreição; então Simão Pedro reage precisamente com o impeto «da carne e do sangue»: «Começou a repreender o Senhor, dizendo: (...) Isso nunca Te há-de acontecer!» (16, 22). Jesus, por sua vez, replicou-lhe: «Vai-te daqui, Satanás! Tu és para Mim uma ocasião de escândalo...» (16, 23). O discípulo que, por dom de Deus, pode tornar-se uma rocha firme, surge aqui como ele é na sua fraqueza humana: uma pedra na estrada, uma pedra onde se pode tropeçar (em grego, skandalon). Por aqui, se vê claramente a tensão que existe entre o dom que provém do Senhor e as capacidades humanas; e aparece de alguma forma antecipado, nesta cena de Jesus com Simão Pedro, o drama da história do próprio Papado, caracterizada precisamente pela presença conjunta destes dois elementos: graças à luz e força que provêm do Alto, o Papado constitui o fundamento da Igreja peregrina no tempo, mas, ao longo dos séculos assoma também a fraqueza dos homens, que só a abertura à acção de Deus pode transformar.
E no Evangelho de hoje sobressai, forte e clara, a promessa de Jesus: «as portas do inferno», isto é, as forças do mal, «non praevalebunt», não conseguirão levar a melhor. Vem à mente a narração da vocação do profeta Jeremias, a quem o Senhor diz ao confiar-lhe a missão: «Eis que hoje te estabeleço como cidade fortificada, como coluna de ferro e muralha de bronze, diante de todo este país, dos reis de Judá e de seus chefes, dos sacerdotes e do povo da terra. Far-te-ão guerra, mas não hão-de vencer - non praevalebunt -, porque Eu estou contigo para te salvar» (Jr 1, 18-19). Na realidade, a promessa que Jesus faz a Pedro é ainda maior do que as promessas feitas aos profetas antigos: de facto, estes encontravam-se ameaçados por inimigos somente humanos, enquanto Pedro terá de ser defendido das «portas do inferno», do poder destrutivo do mal. Jeremias recebe uma promessa que diz respeito à sua pessoa e ministério profético, enquanto Pedro recebe garantias relativamente ao futuro da Igreja, da nova comunidade fundada por Jesus Cristo e que se prolonga para além da existência pessoal do próprio Pedro, ou seja, por todos os tempos.
Detenhamo-nos agora no símbolo das chaves, de que nos fala o Evangelho. Ecoa nele o oráculo do profeta Isaías a Eliaquim, de quem se diz: «Porei sobre os seus ombros a chave do palácio de David; o que ele abrir, ninguém fechará; o que ele fechar, ninguém abrirá» (Is 22, 22). A chave representa a autoridade sobre a casa de David. Entretanto, no Evangelho, há outra palavra de Jesus, mas dirigida aos escribas e fariseus, censurando-os por terem fechado aos homens o Reino dos Céus (cf. Mt 23, 13). Também este dito nos ajuda a compreender a promessa feita a Pedro: como fiel administrador da mensagem de Cristo, compete-lhe abrir a porta do Reino dos Céus e decidir se alguém será aí acolhido ou rejeitado (cf. Ap 3, 7). As duas imagens – a das chaves e a de ligar e desligar – possuem significado semelhante e reforçam-se mutuamente. A expressão «ligar e desligar» pertencia à linguagem rabínica, aplicando-se tanto no contexto das decisões doutrinais como no do poder disciplinar, ou seja, a faculdade de infligir ou levantar a excomunhão. O paralelismo «na terra (...) nos Céus» assegura que as decisões de Pedro, no exercício desta sua função eclesial, têm valor também diante de Deus.
No capítulo 18 do Evangelho de Mateus, consagrado à vida da comunidade eclesial, encontramos outro dito de Jesus dirigido aos discípulos: «Em verdade vos digo: Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu» (Mt 18, 18). E na narração da aparição de Cristo ressuscitado aos Apóstolos na tarde da Páscoa, São João refere esta palavra do Senhor: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ficarão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficarão retidos» (Jo 20, 22-23). À luz destes paralelismos, é claro que a autoridade de «desligar e ligar» consiste no poder de perdoar os pecados. E esta graça, que despoja da sua energia as forças do caos e do mal, está no coração do mistério e do ministério da Igreja. A Igreja não é uma comunidade de seres perfeitos, mas de pecadores que se devem reconhecer necessitados do amor de Deus, necessitados de ser purificados através da Cruz de Jesus Cristo. Os ditos de Jesus sobre a autoridade de Pedro e dos Apóstolos deixam transparecer precisamente que o poder de Deus é o amor: o amor que irradia a sua luz a partir do Calvário. Assim podemos compreender também por que motivo, na narração evangélica, à confissão de fé de Pedro se segue imediatamente o primeiro anúncio da paixão: na verdade, foi com a sua própria morte que Jesus venceu as forças do inferno; com o seu sangue, Ele derramou sobre o mundo uma torrente imensa de misericórdia, que irriga, com as suas águas salutares, a humanidade inteira.

Queridos irmãos, como recordei no princípio, a iconografia tradicional apresenta São Paulo com a espada, e sabemos que esta representa o instrumento do seu martírio. Mas, repassando os escritos do Apóstolo dos Gentios, descobrimos que a imagem da espada se refere a toda a sua missão de evangelizador. Por exemplo, quando já sentia aproximar-se a morte, escreve a Timóteo: «Combati o bom combate» (2 Tm 4, 7); aqui não se trata seguramente do combate de um comandante, mas daquele de um arauto da Palavra de Deus, fiel a Cristo e à sua Igreja, por quem se consumou totalmente. Por isso mesmo, o Senhor lhe deu a coroa de glória e colocou-o, juntamente com Pedro, como coluna no edifício espiritual da Igreja.
Amados Metropolitas, o pálio, que vos entreguei, recordar-vos-á sempre que estais constituídos no e para o grande mistério de comunhão que é a Igreja, edifício espiritual construído sobre Cristo como pedra angular e, na sua dimensão terrena e histórica, sobre a rocha de Pedro. Animados por esta certeza, sintamo-nos todos juntos colaboradores da verdade, que – como sabemos – é una e «sinfónica», exigindo de cada um de nós e das nossas comunidades o esforço contínuo de conversão ao único Senhor na graça de um único Espírito. Que nos guie e acompanhe sempre no caminho da fé e da caridade, a Santa Mãe de Deus. Rainha dos Apóstolos, rogai por nós!

Amen.


FEAST OF SAINTS PETER AND PAUL
HOLY MASS FOR THE IMPOSITION OF THE SACRED PALLIUM 
ON METROPOLITAN ARCHBISHOPS 

HOMILY OF HIS HOLINESS BENEDICT XVI 

Vatican Basilica
Friday, 29 June 2012
Your Eminences,
Brother Bishops and Priests,
Dear Brothers and Sisters,

We are gathered around the altar for our solemn celebration of Saints Peter and Paul, the principal Patrons of the Church of Rome. Present with us today are the Metropolitan Archbishops appointed during the past year, who have just received the Pallium, and to them I extend a particular and affectionate greeting. Also present is an eminent Delegation from the Ecumenical Patriarchate of Constantinople, sent by His Holiness Bartholomaios I, and I welcome them with fraternal and heartfelt gratitude. In an ecumenical spirit, I am also pleased to greet and to thank the Choir of Westminster Abbey, who are providing the music for this liturgy alongside the Cappella Sistina. I also greet the Ambassadors and civil Authorities present. I am grateful to all of you for your presence and your prayers.
In front of Saint Peter’s Basilica, as is well known, there are two imposing statues of Saint Peter and Saint Paul, easily recognizable by their respective attributes: the keys in the hand of Peter and the sword held by Paul. Likewise, at the main entrance to the Basilica of Saint Paul Outside the Walls, there are depictions of scenes from the life and the martyrdom of these two pillars of the Church. Christian tradition has always considered Saint Peter and Saint Paul to be inseparable: indeed, together, they represent the whole Gospel of Christ. In Rome, their bond as brothers in the faith came to acquire a particular significance. Indeed, the Christian community of this City considered them a kind of counterbalance to the mythical Romulus and Remus, the two brothers held to be the founders of Rome. A further parallel comes to mind, still on the theme of brothers: whereas the first biblical pair of brothers demonstrate the effects of sin, as Cain kills Abel, yet Peter and Paul, much as they differ from one another in human terms and notwithstanding the conflicts that arose in their relationship, illustrate a new way of being brothers, lived according to the Gospel, an authentic way made possible by the grace of Christ’s Gospel working within them. Only by following Jesus does one arrive at this new brotherhood: this is the first and fundamental message that today’s solemnity presents to each one of us, the importance of which is mirrored in the pursuit of full communion, so earnestly desired by the ecumenical Patriarch and the Bishop of Rome, as indeed by all Christians.
In the passage from Saint Matthew’s Gospel that we have just heard, Peter makes his own confession of faith in Jesus, acknowledging him as Messiah and Son of God. He does so in the name of the other Apostles too. In reply, the Lord reveals to him the mission that he intends to assign to him, that of being the “rock”, the visible foundation on which the entire spiritual edifice of the Church is built (cf. Mt 16:16-19). But in what sense is Peter the rock? How is he to exercise this prerogative, which naturally he did not receive for his own sake? The account given by the evangelist Matthew tells us first of all that the acknowledgment of Jesus’ identity made by Simon in the name of the Twelve did not come “through flesh and blood”, that is, through his human capacities, but through a particular revelation from God the Father. By contrast, immediately afterwards, as Jesus foretells his passion, death and resurrection, Simon Peter reacts on the basis of “flesh and blood”: he “began to rebuke him, saying, this shall never happen to you” (16:22). And Jesus in turn replied: “Get behind me, Satan! You are a hindrance to me ...” (16:23). The disciple who, through God’s gift, was able to become a solid rock, here shows himself for what he is in his human weakness: a stone along the path, a stone on which men can stumble – in Greek, skandalon. Here we see the tension that exists between the gift that comes from the Lord and human capacities; and in this scene between Jesus and Simon Peter we see anticipated in some sense the drama of the history of the papacy itself, characterized by the joint presence of these two elements: on the one hand, because of the light and the strength that come from on high, the papacy constitutes the foundation of the Church during its pilgrimage through history; on the other hand, across the centuries, human weakness is also evident, which can only be transformed through openness to God’s action.
And in today’s Gospel there emerges powerfully the clear promise made by Jesus: “the gates of the underworld”, that is, the forces of evil, will not prevail, “non praevalebunt”. One is reminded of the account of the call of the prophet Jeremiah, to whom the Lord said, when entrusting him with his mission: “Behold, I make you this day a fortified city, an iron pillar, and bronze walls, against the whole land, against the kings of Judah, its princes, its priests, and the people of the land. They will fight against you; but they shall not prevail against you - non praevalebunt -, for I am with you, says the Lord, to deliver you!” (Jer 1:18-19). In truth, the promise that Jesus makes to Peter is even greater than those made to the prophets of old: they, indeed, were threatened only by human enemies, whereas Peter will have to be defended from the “gates of the underworld”, from the destructive power of evil. Jeremiah receives a promise that affects him as a person and his prophetic ministry; Peter receives assurances concerning the future of the Church, the new community founded by Jesus Christ, which extends to all of history, far beyond the personal existence of Peter himself.
Let us move on now to the symbol of the keys, which we heard about in the Gospel. It echoes the oracle of the prophet Isaiah concerning the steward Eliakim, of whom it was said: “And I will place on his shoulder the key of the house of David; he shall open, and none shall shut; and he shall shut, and none shall open” (Is 22:22). The key represents authority over the house of David. And in the Gospel there is another saying of Jesus addressed to the scribes and the Pharisees, whom the Lord reproaches for shutting off the kingdom of heaven from people (cf. Mt 23:13). This saying also helps us to understand the promise made to Peter: to him, inasmuch as he is the faithful steward of Christ’s message, it belongs to open the gate of the Kingdom of Heaven, and to judge whether to admit or to refuse (cf. Rev 3:7). Hence the two images – that of the keys and that of binding and loosing – express similar meanings which reinforce one another. The expression “binding and loosing” forms part of rabbinical language and refers on the one hand to doctrinal decisions, and on the other hand to disciplinary power, that is, the faculty to impose and to lift excommunication. The parallelism “on earth ... in the heavens” guarantees that Peter’s decisions in the exercise of this ecclesial function are valid in the eyes of God.
In Chapter 18 of Matthew’s Gospel, dedicated to the life of the ecclesial community, we find another saying of Jesus addressed to the disciples: “Truly I say to you, whatever you bind on earth shall be bound in heaven, and whatever you loose on earth shall be loosed in heaven” (Mt 18:18). Saint John, in his account of the appearance of the risen Christ in the midst of the Apostles on Easter evening, recounts these words of the Lord: “Receive the Holy Spirit. If you forgive the sins of any, they are forgiven: if you retain the sins of any, they are retained” (Jn 20:22-23). In the light of these parallels, it appears clearly that the authority of loosing and binding consists in the power to remit sins. And this grace, which defuses the powers of chaos and evil, is at the heart of the Church’s mystery and ministry. The Church is not a community of the perfect, but a community of sinners, obliged to recognize their need for God’s love, their need to be purified through the Cross of Jesus Christ. Jesus’ sayings concerning the authority of Peter and the Apostles make it clear that God’s power is love, the love that shines forth from Calvary. Hence we can also understand why, in the Gospel account, Peter’s confession of faith is immediately followed by the first prediction of the Passion: through his death, Jesus conquered the powers of the underworld, with his blood he poured out over the world an immense flood of mercy, which cleanses the whole of humanity in its healing waters.

Dear brothers and sisters, as I mentioned at the beginning, the iconographic tradition represents Saint Paul with a sword, and we know that this was the instrument with which he was killed. Yet as we read the writings of the Apostle of the Gentiles, we discover that the image of the sword refers to his entire mission of evangelization. For example, when he felt death approaching, he wrote to Timothy: “I have fought the good fight” (2 Tim 4:7). This was certainly not the battle of a military commander but that of a herald of the Word of God, faithful to Christ and to his Church, to which he gave himself completely. And that is why the Lord gave him the crown of glory and placed him, together with Peter, as a pillar in the spiritual edifice of the Church.
Dear Metropolitan Archbishops, the Pallium that I have conferred on you will always remind you that you have been constituted in and for the great mystery of communion that is the Church, the spiritual edifice built upon Christ as the cornerstone, while in its earthly and historical dimension, it is built on the rock of Peter. Inspired by this conviction, we know that together we are all cooperators of the truth, which as we know is one and “symphonic”, and requires from each of us and from our communities a constant commitment to conversion to the one Lord in the grace of the one Spirit. May the Holy Mother of God guide and accompany us always along the path of faith and charity. Queen of Apostles, pray for us!
Amen.

© Copyright 2012 - Libreria Editrice Vaticana

Sunday, June 3, 2012

VII Encontro Mundial Das Familias / 7th World Meeting Of Families



                          VISITA PASTORAL À ARQUIDIOCESE DE MILÃO
                                E VII ENCONTRO MUNDIAL DAS FAMÍLIAS
                                                (1-3 DE JUNHO DE 2012)

                                              CELEBRAÇÃO EUCARÍSTICA

                                             HOMILIA DO PAPA BENTO XVI



Parque de Bresso
Domingo, 3 de Junho de 2012

Venerados Irmãos,
Distintas Autoridades,
Amados irmãos e irmãs!

Grande momento de alegria e de comunhão é este que vivemos ao celebrar o Sacrifício Eucarístico, nesta manhã. Está reunida com o Sucessor de Pedro uma grande assembleia, composta por fiéis vindos de muitas nações. Nela temos uma expressiva imagem da Igreja, una e universal, fundada por Cristo e fruto da missão que Jesus, como ouvimos no Evangelho, confiou aos seus Apóstolos: «Ide, pois, fazer discípulos de todas as nações, baptizai-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (Mt 28, 18-19). Saúdo com afecto e gratidão o Cardeal Angelo Scola, Arcebispo de Milão, e o Cardeal Ennio Antonelli, Presidente do Pontifício Conselho para a Família, principais artífices deste VII Encontro Mundial das Famílias, bem como os seus colaboradores, os Bispos Auxiliares de Milão e todos os outros Prelados. Com prazer, saúdo todas as Autoridades presentes. E, hoje, o meu caloroso abraço vai sobretudo para vós, queridas famílias! Obrigado pela vossa participação!
Na segunda Leitura, o apóstolo Paulo recordou-nos que recebemos no Baptismo o Espírito Santo, que de tal modo nos une a Cristo como irmãos e liga ao Pai como filhos, que podemos gritar: «Abba! Pai!» (cf. Rm 8, 15.17). Então foi-nos dado um gérmen de vida nova, divina, que se há-de fazer crescer até à realização definitiva na glória celeste; tornamo-nos membros da Igreja, a família de Deus, «sacrarium Trinitatis» – na expressão de Santo Ambrósio –, «um povo – como ensina o Concílio Vaticano II – unido pela unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (Const. Lumen gentium, 4). A solenidade litúrgica da Santíssima Trindade, que hoje celebramos, convida-nos a contemplar este mistério, mas impele-nos também ao compromisso de viver a comunhão com Deus e entre nós segundo o modelo da comunhão trinitária. Somos chamados a acolher e a transmitir, concordes, as verdades da fé; a viver o amor recíproco e para com todos, compartilhando alegrias e sofrimentos, aprendendo a pedir e a dar o perdão, valorizando os diversos carismas sob a guia dos Pastores. Numa palavra, está-nos confiada a tarefa de construir comunidades eclesiais que sejam cada vez mais família, capazes de reflectir a beleza da Trindade e evangelizar não só com a palavra mas – diria eu – por «irradiação», com a força do amor vivido.
Não é só a Igreja que é chamada a ser imagem do Deus Uno em Três Pessoas, mas também a família fundada no matrimónio entre o homem e a mulher. No princípio, de facto, «Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus: Ele os criou homem e mulher. Abençoando-os, Deus disse-lhes: “Crescei e multiplicai-vos”» (Gn 1, 27-28). Deus criou o ser humano, homem e mulher, com igual dignidade, mas também com características próprias e complementares, para que os dois fossem dom um para o outro, se valorizassem reciprocamente e realizassem uma comunidade de amor e de vida. O amor é o que faz da pessoa humana a autêntica imagem da Trindade, imagem de Deus. Queridos esposos, na vivência do matrimónio, não dais qualquer coisa ou alguma actividade, mas a vida inteira. E o vosso amor é fecundo, antes de mais nada, para vós mesmos, porque desejais e realizais o bem um do outro, experimentando a alegria do receber e do dar. Depois é fecundo na procriação generosa e responsável dos filhos, na solicitude carinhosa por eles e na educação cuidadosa e sábia. Finalmente é fecundo para a sociedade, porque a vida familiar é a primeira e insubstituível escola das virtudes sociais, tais como o respeito pelas pessoas, a gratuidade, a confiança, a responsabilidade, a solidariedade, a cooperação. Queridos esposos, cuidai dos vossos filhos e, num mundo dominado pela técnica, transmiti-lhes com serenidade e confiança as razões para viver, a força da fé desvendando-lhes metas altas e servindo-lhes de apoio na fragilidade. Mas também vós, filhos, sabei manter sempre uma relação de profundo afecto e solícito cuidado com os vossos pais, e as relações entre irmãos e irmãs sejam também oportunidade para crescer no amor.
O projecto de Deus para o casal humano alcança a sua plenitude em Jesus Cristo, que elevou o matrimónio a Sacramento. Com um dom especial do Espírito Santo, queridos esposos, Cristo faz-vos participar no seu amor esponsal, tornando-vos sinal do seu amor pela Igreja: um amor fiel e total. Se souberdes acolher este dom, renovando diariamente o vosso «sim» com fé e com a força que vem da graça do Sacramento, também a vossa família viverá do amor de Deus, tomando por modelo a Sagrada Família de Nazaré. Queridas famílias, pedi muitas vezes, na oração, o auxílio da Virgem Maria e de São José, para que vos ensinem a acolher o amor de Deus como o acolheram eles. A vossa vocação não é fácil de viver, especialmente hoje, mas a realidade do amor é maravilhosa, é a única força que pode verdadeiramente transformar o universo, o mundo. Aos vossos olhos foi oferecido o testemunho de tantas famílias, que indicam os caminhos para crescer no amor: manter um relacionamento perseverante com Deus e participar na vida eclesial, cultivar o diálogo, respeitar o ponto de vista do outro, estar disponíveis para servir, ser paciente com os defeitos alheios, saber perdoar e pedir perdão, superar com inteligência e humildade os possíveis conflitos, concordar as directrizes educacionais, estar abertos às outras famílias, atentos aos pobres, ser responsáveis na sociedade civil. Todos estes são elementos que constroem a família. Vivei-os com coragem, pois na medida em que, com o apoio da graça divina, viverdes o amor mútuo e para com todos, tornar-vos-eis um Evangelho vivo, uma verdadeira Igreja doméstica (cf. Exort. ap. Familiaris consortio, 49). Quero dedicar uma palavra também aos fiéis que, embora compartilhando os ensinamentos da Igreja sobre a família, estão marcados por experiências dolorosas de falência e separação. Sabei que o Papa e a Igreja vos apoiam na vossa fadiga. Encorajo-vos a permanecer unidos às vossas comunidades, enquanto almejo que as dioceses assumam adequadas iniciativas de acolhimento e proximidade.
No livro do Génesis, Deus confia ao casal humano a sua criação, para que a guarde, cultive e guie de acordo com o seu plano (cf. 1, 27-28; 2, 15). Nesta indicação da Sagrada Escritura, podemos ler a missão que tem o homem e a mulher de colaborar com Deus para transformar o mundo, através do trabalho, da ciência e da técnica. O homem e a mulher são também imagem de Deus nesta obra preciosa, que devem realizar com o mesmo amor do Criador. Vemos que, nas teorias económicas modernas, prevalece muitas vezes uma concepção utilitarista do trabalho, da produção e do mercado. Mas, o projecto de Deus e a própria experiência mostram que não é a lógica unilateral do que me é útil e do maior lucro que pode concorrer para um desenvolvimento harmonioso, o bem da família e para construir uma sociedade justa, porque traz consigo uma competição exasperada, fortes desigualdades, degradação do meio ambiente, corrida ao consumo, mal-estar nas famílias. Antes, a mentalidade utilitarista tende a estender-se também às relações interpessoais e familiares, reduzindo-as a convergências precárias de interesses individuais e minando a solidez do tecido social.
Um último elemento. O homem, enquanto imagem de Deus, é chamado também ao descanso e à festa. A narrativa da criação termina com estas palavras: «Concluída, no sétimo dia, toda a obra que tinha feito, Deus repousou, no sétimo dia, de todo o trabalho por Ele realizado. Deus abençoou o sétimo dia e santificou-o» (Gn 2, 2-3). Para nós, cristãos, o dia de festa é o Domingo, dia do Senhor, Páscoa da semana. É o dia da Igreja, assembleia convocada pelo Senhor ao redor da mesa da Palavra e do Sacrifício Eucarístico, como estamos a fazer hoje, para nos alimentar d’Ele, entrar no seu amor e viver do seu amor. É o dia do homem e dos seus valores: convivência, amizade, solidariedade, cultura, contacto com a natureza, jogo, desporto. É o dia da família, em que se há-de viver, juntos, o sentido da festa, do encontro, da partilha, também com a participação na Santa Missa. Queridas famílias, mesmo nos ritmos acelerados do nosso tempo, não percais o sentido do dia do Senhor! É como o oásis onde parar para saborear a alegria do encontro e saciar a nossa sede de Deus.
Família, trabalho, festa: três dons de Deus, três dimensões da nossa vida que se devem encontrar num equilíbrio harmonioso. Harmonizar os horários do trabalho e as exigências da família, a profissão e a paternidade e maternidade, o trabalho e a festa é importante para construir sociedades com um rosto humano. Nisto, privilegiai sempre a lógica do ser sobre a do ter: a primeira constrói, a segunda acaba por destruir. É preciso educar-se para crer, em primeiro lugar na família, no amor autêntico: o amor que vem de Deus e nos une a Ele e, por isso mesmo, «nos transforma em um Nós, que supera as nossas divisões e nos faz ser um só, até que, no fim, Deus seja “tudo em todos” (1 Cor 15, 28)» (Enc. Deus caritas est, 18). Amen.


                          PASTORAL VISIT TO THE ARCHDIOCESE OF MILAN
                                 AND 7th WORLD MEETING OF FAMILIES
                                                            (1-3 JUNE 2012)

                                             EUCHARISTIC CELEBRATION

                              HOMILY OF HIS HOLINESS POPE BENEDICT XVI



Bresso Park
Sunday, 3 June 2012

Dear Brother Bishops,
Distinguished Authorities,
Dear Brothers and Sisters,

It is a time of great joy and communion that we are experiencing this morning, as we celebrate the eucharistic Sacrifice: a great gathering, in union with the Successor of Peter, consisting of faithful who have come from many different nations. It is an eloquent image of the Church, one and universal, founded by Christ and fruit of the mission entrusted by Jesus to his Apostles, as we heard in today’s Gospel: to go and make disciples of all nations, “baptizing them in the name of the Father and of the Son and of the Holy Spirit” (Mt 28:18-19). With affection and gratitude I greet Cardinal Angelo Scola, Archbishop of Milan, and Cardinal Ennio Antonelli, President of the Pontifical Council for the Family, the principal architects of this VII World Meeting of Families, together with their staff, the Auxiliary Bishops of Milan and all the other bishops. I am pleased to greet all the Authorities who are present today. And I extend a warm welcome especially to you, dear families! Thank you for your participation!
In today’s second reading, Saint Paul reminds us that in Baptism we received the Holy Spirit, who unites us to Christ as brothers and sisters and makes us children of the Father, so that we can cry out: “Abba, Father!” (cf. Rom 8:15,17). At that moment we were given a spark of new, divine life, which is destined to grow until it comes to its definitive fulfilment in the glory of heaven; we became members of the Church, God’s family, “sacrarium Trinitatis” as Saint Ambrose calls it, “a people made one by the unity of the Father, the Son and the Holy Spirit”, as the Second Vatican Council teaches (Lumen Gentium, 4). The liturgical Solemnity of the Holy Trinity that we are celebrating today invites us to contemplate this mystery, but it also urges us to commit ourselves to live our communion with God and with one another according to the model of Trinitarian communion. We are called to receive and to pass on the truths of faith in a spirit of harmony, to live our love for each other and for everyone, sharing joys and sufferings, learning to seek and to grant forgiveness, valuing the different charisms under the leadership of the bishops. In a word, we have been given the task of building church communities that are more and more like families, able to reflect the beauty of the Trinity and to evangelize not only by word, but I would say by “radiation”, in the strength of living love.
It is not only the Church that is called to be the image of One God in Three Persons, but also the family, based on marriage between man and woman. In the beginning, “God created man in his own image, in the image of God he created him; male and female he created them. And God blessed them, and God said to them, ‘Be fruitful and multiply’” (Gen 1:27-28). God created us male and female, equal in dignity, but also with respective and complementary characteristics, so that the two might be a gift for each other, might value each other and might bring into being a community of love and life. It is love that makes the human person the authentic image of the Blessed Trinity, image of God. Dear married couples, in living out your marriage you are not giving each other any particular thing or activity, but your whole lives. And your love is fruitful first and foremost for yourselves, because you desire and accomplish one another’s good, you experience the joy of receiving and giving. It is also fruitful in your generous and responsible procreation of children, in your attentive care for them, and in their vigilant and wise education. And lastly, it is fruitful for society, because family life is the first and irreplaceable school of social virtues, such as respect for persons, gratuitousness, trust, responsibility, solidarity, cooperation. Dear married couples, watch over your children and, in a world dominated by technology, transmit to them, with serenity and trust, reasons for living, the strength of faith, pointing them towards high goals and supporting them in their fragility. And let me add a word to the children here: be sure that you always maintain a relationship of deep affection and attentive care for your parents, and see that your relationships with your brothers and sisters are opportunities to grow in love.
God’s plan for the human couple finds its fullness in Jesus Christ, who raised marriage to the level of a sacrament. Dear married couples, by means of a special gift of the Holy Spirit, Christ gives you a share in his spousal love, making you a sign of his faithful and all-embracing love for the Church. If you can receive this gift, renewing your “yes” each day by faith, with the strength that comes from the grace of the sacrament, then your family will grow in God’s love according to the model of the Holy Family of Nazareth. Dear families, pray often for the help of the Virgin Mary and Saint Joseph, that they may teach you to receive God’s love as they did. Your vocation is not easy to live, especially today, but the vocation to love is a wonderful thing, it is the only force that can truly transform the cosmos, the world. You have before you the witness of so many families who point out the paths for growing in love: by maintaining a constant relationship with God and participating in the life of the Church, by cultivating dialogue, respecting the other’s point of view, by being ready for service and patient with the failings of others, by being able to forgive and to seek forgiveness, by overcoming with intelligence and humility any conflicts that may arise, by agreeing on principles of upbringing, and by being open to other families, attentive towards the poor, and responsible within civil society. These are all elements that build up the family. Live them with courage, and be sure that, insofar as you live your love for each other and for all with the help of God’s grace, you become a living Gospel, a true domestic Church (cf. Familiaris Consortio, 49). I should also like to address a word to the faithful who, even though they agree with the Church’s teachings on the family, have had painful experiences of breakdown and separation. I want you to know that the Pope and the Church support you in your struggle. I encourage you to remain united to your communities, and I earnestly hope that your dioceses are developing suitable initiatives to welcome and accompany you.
In the Book of Genesis, God entrusts his creation to the human couple for them to guard it, cultivate it, and direct it according to his plan (cf. 1:27-28; 2:15). In this indication of Sacred Scripture we may recognize the task of man and woman to collaborate with God in the process of transforming the world through work, science and technology. Man and woman are also the image of God in this important work, which they are to carry out with the Creator’s own love. In modern economic theories, there is often a utilitarian concept of work, production and the market. Yet God’s plan, as well as experience, show that the one-sided logic of sheer utility and maximum profit are not conducive to harmonious development, to the good of the family or to building a just society, because it brings in its wake ferocious competition, strong inequalities, degradation of the environment, the race for consumer goods, family tensions. Indeed, the utilitarian mentality tends to take its toll on personal and family relationships, reducing them to a fragile convergence of individual interests and undermining the solidity of the social fabric.
One final point: man, as the image of God, is also called to rest and to celebrate. The account of creation concludes with these words: “And on the seventh day God finished his work which he had done, and he rested on the seventh day from all his work which he had done. So God blessed the seventh day and hallowed it” (Gen 2:2-3). For us Christians, the feast day is Sunday, the Lord’s day, the weekly Easter. It is the day of the Church, the assembly convened by the Lord around the table of the word and of the eucharistic Sacrifice, just as we are doing today, in order to feed on him, to enter into his love and to live by his love. It is the day of man and his values: conviviality, friendship, solidarity, culture, closeness to nature, play, sport. It is the day of the family, on which to experience together a sense of celebration, encounter, sharing, not least through taking part in Mass. Dear families, despite the relentless rhythms of the modern world, do not lose a sense of the Lord’s Day! It is like an oasis in which to pause, so as to taste the joy of encounter and to quench our thirst for God.
Family, work, celebration: three of God’s gifts, three dimensions of our lives that must be brought into a harmonious balance. Harmonizing work schedules with family demands, professional life with fatherhood and motherhood, work with celebration, is important for building up a society with a human face. In this regard, always give priority to the logic of being over that of having: the first builds up, the second ends up destroying. We must learn to believe first of all in the family, in authentic love, the kind that comes from God and unites us to him, the kind that therefore “makes us a ‘we’ which transcends our divisions and makes us one, until in the end God is ‘all in all’ (1 Cor 15:28)” (Deus Caritas Est, 18). Amen.

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